sábado, 16 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: Sobrevivendo no Inferno - Racionais MC's (Zimbabwe/Cosa Nostra, 1997)

São Paulo, Palácio das Convenções do Anhembi, noite do 13 de agosto de 1998, uma chuva que quase parou a cidade e o Anhembi, que recebia a quarta edição do Video Music Brasil, o famoso VMB, prêmio de música da MTV no nosso país. O apresentador? Um tal de Carlinhos Brown que além de fazer umas batucadas, anunciava o prêmio de Melhor Clipe - Escolha da Audiência, e adivinhem quem ganhou? Nada de Skank, Paralamas, Raimundos, Barão ou até o próprio Caetano Veloso e sim o clipe de um grupo de rap, os Racionais MC's e seu clássico videoclipe Diário de Um Detento, que narrava a história de um dos tantos personagens que vivenciaram o massacre do Carandiru, em outubro de 1992, um mês após o processo de impeachment que derrubava o primeiro presidente eleito democraticamente desde 1960, o alagoano Fernando Collor de Mello, e o quadro-geral de violência tendia a piorar não somente no sistema carcerário, mas também nas periferias e nas regiões centrais das grandes cidades. São Paulo vivia de índices violentíssimos, e para você ter noção, caro leitor/ouvinte, quem vivia em comunidades como o Capão Redondo, tinha até 12 vezes a chance de morrer. O relato de um presidiário conseguiu ganhar, enfim, o Brasil e o mundo através de um conjunto com seus dez anos de trajetória, oriundos do underground, e o vídeo se tornou um clássico da videografia da música brasileira e da MTV Brasil, que passou muitas vezes. Além disto, era preciso lembrar que: no meio do discurso de KL Jay, produtor e DJ do grupo, houve uma espécie de "freestyle" um discurso antirracista cantado e improvisado por Brown, que interrompera ali num tom solidário. Também levaram a melhor naquela mesma noite com a categoria Melhor Videoclipe de Rap, anunciados pelo então casal negro da moda: o pagodeiro Netinho de Paula e a jovem atriz Taís Araújo (hoje casada com Lázaro Ramos), e o então vocalista do Negritude Junior falara que tanto o rap, quanto o funk e o pagode mostravam o papel do negro na música - verídico. Bom, quem também duvidou de todo esse sucesso dos Racionais, que tinha uma década de estrada, não imaginava o grande estouro, pois haviam lançado em dezembro de 1997 um dos discos mais emblemáticos que ajudou a colocar o hip hop em um dos grandes patamares da música popular brasileira, com um discurso realista das favelas, a violência, críticas contra o sistema sociopolíticoeconômico, de caráter relevante para aqueles que não tinham o que podemos considerar voz e vez entre boa parte do povo. Sim, falar de Sobrevivendo no Inferno é falar de um álbum que, como poucos, transpôs a realidade das vítimas do abuso de poder, sejam dos políticos, do sistema carcerário e enfim: KL Jay, Mano Brown, Edi Rock e Ice Blue atacavam novamente com versos que se destacariam pela forma de ataque direto aos que ignoram as tragédias vivenciadas pelo pessoal suburbano. A capa, feita por Marcos Marques, diretor de arte da revista Raça, surgiu após uma ligação de Blue, e a cruz foi inspirado na tatuagem de Brown no braço, trouxe também fotos clicadas por Klaus Mitteldorf, todas na região do Capão Redondo, com direito a foto de um sujeito de costas, armado, entre as faixas e um dos versículos do Salmo 23, o mesmo salmo usado na capa deste também.
Sobrevivendo no Inferno mal começa e já temos uma reverência ao grande mestre do suingue, estamos falando de Jorge Ben e seu tema de 1975 Jorge da Capadócia, gravada em Solta o Pavão e também por Caetano Veloso em seu disco Qualquer Coisa, ambos no mesmo ano, aqui ganha uma versão tendo como base Ike's Rap II, do Isaac Hayes, e aqui o grupo faz uma releitura fiel que antecede o que vem por aí neste clássico do rap nacional; na sequência, temos a faixa Gênesis, que nada mais é do que uma vinheta de 25 segundos, com Brown dizendo "Deus fez o mar, as águas, as crianças o amor..." e expõe o lado suburbana, com ruídos de sirenes e admite estar Sobrevivendo no Inferno realmente, e dá a deixa; a deixa é para o tema que abre com relatos sobre os jovens negros de periferia que sofrem dos abusos policiais, sobre o pouco espaço em universidades - soa como uma propaganda de TV ou de rádio a respeito do racismo, mas é Primo Preto, "mais um sobrevivente" que passa o bastão para Mano Brown soltar os versos de Capítulo 4, Versículo 3, da célebre frase "apoiado por mais de 50 mil manos", com os melhores 8 minutos do hip hop nacional, não perdoam ninguém: nem playboy, nem o próprio sistema, rendeu até uma interpretação ao vivo no VMB daquele 1998 fazendo a multidão ir ao delírio com a poesia suburbana de Brown que soa mais atual do que nunca no ponto de vista, tanto para os fãs quanto para os críticos, que manjam mesmo; a faixa seguinte mantêm essa narrativa com uma pegada das crônicas periféricas que ambientam, é a mais longa do álbum: Tô Ouvindo Alguém Me Chamar, com Brown na pele de um mano baleado a mando de um antigo parceiro de crime, que não tem nome, mas é chamado de Guina - este, preso, que achou que foi o tal mano que o entregou, e sente seus últimos momentos recriando uma narrativa, com uma chance de poder mudar sua vida caso escapasse, são 11 minutos e 13 segundos que não fazem feio, e mantendo o tom que marca as canções do álbum; uma narração de futebol é o que inicia a música Rapaz Comum, de Edi Rock, é onde ele também põe sua visão sobre a vida de um cidadão negro da periferia, e se imaginando mais uma vez como seria o seu final sendo um dos tantos, ganha um baita destaque no repertório do conjunto; e ainda temos um tema instrumental sem título, mas creditado assim ... - isto mesmo, três pontos, é um intevalo com uma pegada bem funky, lembra a base de alguma canção do Isaac Hayes ou até do Funkadelic, seja lá qual artista lembra, mas já dá a antecipada para o que vem por aí: "São Paulo, dia 1º de outubro de 1992, 8 horas da manhã..." e eis que assim abre Diário de Um Detento, inspirado em um relato do ex-presidiário Jocenir, um dos sobreviventes do massacre do Carandiru onde 111 presos foram mortos pela polícia, e que com a voz de Mano Brown ganha uma potência, e se tornou um dos maiores temas do hip hop brasileiro, embora tendo seus 7 minutos e 33 segundos que nos impressionam pela crônica suburbana que ambienta os versos, que conquistou o Brasil e o mundo inteiro também, já que o grupo têm seu valor pelos fãs de rap nos quatro cantos deste planeta, que ajudou a render 2 estatuetas do mesmo VMB já citado anteriormente; em seguida, o disco segue a lançar temas de peso, Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar), por exemplo, traz ainda essa mensagem de ativismo social onipresente nos versos do tema, com um perfil bem storyteller como têm em vários raps, com citações de trechos de canções do GOG, do Thaíde & DJ Hum, Sistema Negro e dos próprios Racionais, como Homem na Estrada e também Fim de Semana no Parque já nos minutos finais; parece até coisa de doido, mas uma rádio sintonizada num tema do Boi-Bumbá Garantido, e ainda tem um trecho de Vem Quente Que Eu Estou Fervendo na versão do Barão Vermelho, como se fosse uma busca da música boa para acompanhar a jornada de Edi Rock em Qual Mentira Vou Acreditar?, que traz aqui uma pegada bem parecida com os temas de gangsta rap, com Brown dando um toque a mais, e aqui o personagem começa a suspeitar de tudo o que falam, qualquer desculpa que acaba soando como uma mentira em meio à curtição da vida, nesta aqui até Blue também puxa alguns versos também; e há também uma presença de pessoas que contam suas histórias envolvendo seu passado com drogas, abrindo de vez Mágico de Oz, também de Rock, continua com esse show de pérolas realistas do subúrbio que acabam soando como uma mensagem reflexiva sobre as crianças perdidas no mundo da cola, uma atenção ao ler nas entrelinhas os versos; mais adiante, ainda temos aqui um Mano Brown que revê suas memórias do passado humilde através de Fórmula Mágica da Paz, composta quando morava em Cohab (Conjunto Habitacional), e sua situação sempre foi uma moradia segundo ele, e dessa vivência nas quebradas e esse acesso de nostalgia o fazem botar num monte de lembranças que passam a cada verso dos 10 minutos que fazem parte da faixa, e a tal fórmula mágica é uma espécie de saída do mundo das drogas e da violência, e aqui faz uma citação ao Cemitério São Luís, aonde muitos haviam sido enterrados após morrerem em conflitos, e ainda deixa uma mensagem de esperança às famílias que haviam perdido filhos e parentes e pede que busquem a tal Fórmula nos últimos minutos complementados por versos cantados como "Agradeça a Deus e aos orixás" repetido muitas vezes; para terminar, o álbum fecha com a mesma pegada melódica de Jorge da Capadócia, mas desta vez com Brown dedicando à todas as comunidades paulistas "...as grades nunca vão prender nosso pensamento" e também Ice Blue complementando a mensagem de Salve, que também acaba reverenciando às comunidades periféricas brasileiras e também a Jesus Cristo, fechando com um "paz" deixando assim um positivismo aos manos e minas, e afirmando que o rap é a trilha sonora do gueto, o que nunca deixou de ser verdade.
O hip hop até então tinha representantes com pouco destaque nos grandes veículos, embora nomes como MV Bill, Cidinho & Doca, o próprio Planet Hemp e também Gabriel O Pensador levantavam a bandeira carioca do cenário, a Cidade Maravilhosa era mais acostumada com o funk, que se expandiu até hoje. Por isso que São Paulo se tornou a capital nacional do rap brasileiro, trazendo nomes como Thaíde & DJ Hum, PMC & DJ Deco Murphy, DMC (D Menos Crime), GOG, Pavilhão 9, Facção Central, Faces do Subúrbio entre outros, mas foi o Racionais MC's que elevou o rap a outros níveis, com o perdão dos colegas de geração. Em pouco tempo, o grupo estava vendendo 200 mil cópias, acabou dando uma visibilidade enorme, em pouco tempo começaram a receber propostas para se apresentar inclusive na Rede Globo, porém o grupo foi contra e evita fazer esse tipo de performance na emissora dos Marinho até hoje. Em 1998, já era mais de um milhão de cópias vendidas, ou seja: pra quem achava que só uma loirinha de rosto simpático apresentadora de programa infantil ou grupos de samba romântico, ou só duplas sertanejas com suas canções melódicas podiam bater esse número, o grupo seguiu a lógica de Pessoa: e não sabendo que era impossível, foram lá e fizeram a coisa acontecer, é o álbum mais vendido do hip hop brasileiro até hoje, embora lançado por um selo independente, o que deixa os executivos boquiabertos e em dúvidas. O disco merece mesmo todas as honrarias, pelo conceito, as letras e tudo mais, não é à toa que ele recebeu o 14º lugar na lista dos 100 melhores álbuns da música brasileira feita pela Rolling Stone daqui, e virou até presente do Papa Francisco que o ex-prefeito Fernando Haddad oferecera, e talvez o Sumo Pontífice deva ter ouvido e compreendido a mensagem daqueles que têm voz e vez para combater todos os tipos de desigualdades sociais combatida desde os primórdios da civilização humana brasileira.
Set do disco:
1 - Jorge da Capadócia (Jorge Ben)
2 - Gênesis (Mano Brown) - vinheta
3 - Capítulo 4, Versículo 3 (Mano Brown)
4 - Tô Ouvindo Alguém Me Chamar (Mano Brown)
5 - Rapaz Comum (Edi Rock)
6 - ... (Edi Rock) - instrumental
7 - Diário de Um Detento (Jocenir/Mano Brown)
8 - Periferia é Periferia (Em Qualquer Lugar) (Edi Rock)
9 - Qual Mentira Vou Acreditar? (Edi Rock/Mano Brown)
10 - Mágico de Oz (Edi Rock)
11 - Fórmula Mágica da Paz (Mano Brown)
12 - Salve (Mano Brown/Ice Blue)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: The Head on the Door - The Cure (Fiction Records/Polydor, 1985)

Durante os anos 1980, era difícil não conhecer um amigo que ouvia e curtia The Cure, uma das bandas britânicas que mais dominavam o cenário pop rock mundial, assim como o New Order, o Echo & The Bunnymen, o Duran Duran, os próprios Smiths: enfim, eles eram a supremacia desse cenário. O Cure, como se pode notar, era aquela banda cheia de sucessos na década e que não tinham pra ninguém. Podemos dizer muito mais, que Robert Smith é um compositor de mão cheia, talvez um dos melhores letristas daquela década marcante. O grupo vivia um momento que não estava bem ao que se esperava, pois tinham lançado diversos álbuns como Three Imaginary Boys (1979), Seventeen Seconds (1980), Faith (1981), Pornography (1982), além do conjunto de singles Japanese Whispers (1983) e do psicodelismo The Top (1984) - aliás, este foi um dos discos menos aproveitados e Smith perdeu a cabeça quando compusera o repertório deste álbum. Sim, o frontman que deu voz a canções como Killing an Arab, The Lovecats e também Boys Don't Cry havia dado uma relaxada depois de um período meio difícil, para um grupo de jovens que haviam deixado Crawley, uma cidade do West Sussex para conquistarem o mundo, e nesse período, Smith era também guitarrista de Siouxsie & The Banshees, e junto da banda da lendária frontwoman do que chamamos de goth rock, ou o rock gótico para ser mais preciso, e com essa influência toda, começou a usar maquiagem pesada, roupas mais escuras mais o cabelo todo despenteado e bagunçado demais, e conseguiu se manter com essa imagem até hoje. Mas entre os companheiros de banda e estrada, o problema não estava totalmente nas mudanças visuais, pois teve quebra-pau entre Smith e o baixista Simon Gallup durante um show num bar, por algo insignificante. Era difícil um dos melhores parceiros permanecerem ali numa crise que parecia ter atingido uma banda em seu estado máximo de vanglória com tantos hits, shows que pareciam estar mais cheios de fas sedentos das músicas da banda. Parecia um grande boom o caos que atormentou a banda entre 1983 e 1984, e isso acabou incomodando a própria cabeça por trás de todo esse sucesso e que comanda este conjunto, nada fácil mesmo. Mas, esperou a cabeça dar uma esfriada, após o fraco e viajante The Top, que exigiu mais de si próprio, estava falando de coisas pesadas, como o consumo de drogas e alucinações - e já depois da experiência acompanhando Siouxsie, logo no momento em que ele deixou a banda cansado de ser uma celebridade, e isso estava bem longe do comum de sempre. Mas, em 1985, decidiu reformular a banda e retomar ao status de celebridade e de astro do rock, trouxe Gallup de volta à banda após conversarem amigavelmente sobre as brigas, reformulou a banda, seguia com o baterista Lol Thurst - que passara para os teclados -, mais Porl Thompson na guitarra e Boris Williams na bateria, este um ex-integrante dos Thompson Twins, e com esta formação o Cure voltava a ser notado como uma grande banda através do álbum The Head on the Door, editado pela Fiction Records em 13 de agosto de 1985, um mês depois do mundo se atentar às 24 horas de shows em Wembley e na Filadélfia através de um show que fez a diferença, o Live Aid, organizado pelo ex-Boomtown Rats, Bob Geldof e que uniu nomes como Queen, Paul McCartney, Dire Straits, Mick Jagger, David Bowie entre outros, cada um em um lado diferente do planeta e que fez toda a diferença em se unirem no combate à fome nos países africanos naqueles anos 80 embalados de emoção e música boa.
O álbum The Head on the Door recuperou o tempo perdido da banda, trazendo letras mais otimistas e com um sucesso comercial superior a Ponorgraphy, e foi através deste disco que os americanos conheceram mais este grande conjunto britânico, tornando-se um sucesso não só nas paradas mas também na MTV onde diversos clipes foram exibidos de forma infinita, total. O título do álbum remete a um dos pesadelos que Smith teve durante sua infância, e esta "cabeça na porta" está em um dos versos da música deste álbum, mas os sonhos e pesadelos também ambientam em todo o disco, ao notarmos aqui o conceito das letras. O álbum já abre bem com um dos clássicos que marcou a geração 80 e quem assistia MTV, estamos falando de In Between Days, com um refrão que marca mesmo, e com um fraseado de guitarra também nostálgico, nos versos temos um pouco de morbidez, traz a infelicidade de envelhecer e se chatear com seu amor, junte tudo isto e faça uma das melhores canções de todos os tempos que já foram feitas, o resultado agrada e muito no final; a próxima faixa também carrega esse ar sombrio de pesadelos, Smith se inspirou em um que sua esposa Mary Poole estava se afogando e também de um pesadelo dela envolvendo canibalismo - junte tudo isto e tenha uma pérola, logo Kyoto Song, também uma homenagem ao público japonês e que traz um verso envolvendo os pesadelos "I see no further now than this dream" (Eu não vejo o mais longe do que este sonho - tradução livre), com um arranjo que dá realmente pro gasto aqui; o que acontece mesmo quando Robert Smith viaja a Portugal e bebe um vinho chamado Lágrimas de Cristo com a imagem da Virgem Maria segurando Jesus no colo por um braço e uma garrafa sob o outro? Acaba batendo aquela inspiração para compor outro temaço deste disco, The Blood, aonde a descrença no cristianismo é destacada pelo eu-lírico e na frase "Every mirage I see is a mirage of you" acreditem, a miragem é sobre Jesus Cristo, aqui soa como se fosse uma visão diferente da pessoa sobre a religião, tentar deixar os dogmas de lado, e o vinho português agradece a Smith por ter se inspirado nesta bebida que resultou nisto; e pelo jeito, a experiência de uma breve passagem como músico de Siouxsie o ajudou em muita coisa, até mesmo em uma das músicas dela, que uma simples melodia de piano tornou-se parte de Six Different Ways, que, segundo o próprio frontman, é um tema com uma pegada de 6/8, e não esperava que um baterista como Boris Williams fosse tocar daquele jeito, e que era uma grande sensação estar numa banda que jogasse muito bem - e a goleada foi de cabeça, o resultado é excelente mesmo; e para não deixar passar batido, temos aqui Push, não tropeça no conceito dentro do disco, aqui o negócio mantêm-se fiel mesmo, sem ignorar também um baita solo de guitarra que soa mágico e inspirante, e segundo o vocalista, que se impressionara com o fato de muitas letras terem surgido de conversas estranhas que estavam tendo no estúdio, uma fórmula que, no Cure, acaba dando totalmente certo; o lado obscuro da banda segue a ser explorado em músicas como The Baby Screams, com um ritmo mais cheio de agito, e que traz alusões a um bebê sendo torturado até a morte, bem típico das canções arrepiantes e incríveis do repertório da banda; se lembra de que falamos a respeito deste trabalho ter sido inspirado em um dos pesadelos de Smith quando criança? Então, os pesadelos surreais ainda desfilam no repertório com Close to Me, um tema bem destacável no repertório do disco, com uma pegada bem pop e um pianinho bem doce nessa canção ajudando a se tornar um dos maiores hits deste disco e de toda a carreira da banda; outro grande sucesso que engrossa o caldo do repertório é A Night Like This, acaba soando mais reflexivo, com um ritmo mais de balada, e traz um solo de sax tocado por Ron Howe e que acaba agradando aqui os ouvintes; a próxima música que segue esse repertório é Screw e seu baixo bem distorcido, mais puxado para um pop oitentista sintetizado, aqui Smith faz convite para sentir o paladar com um quê de sensualidade "Take your taste in your mouth/Take the taste on your tongue" (Experimente o gosto na sua boca/Experimente o gosto na sua língua - tradução livre), um ar bem nostálgico que carrega pela levada e o excesso de sintetizadores ao escutarmos; já para encerrar, podemos notar que a mente brilhante do Cure consegue se aprofundar de vez na melancolia, fiel às canções góticas, através de Sinking, onde Robert fala sobre estar a cada dia mais num estado deplorável de decadência, com um toque bem profundo nos arranjos, fechando de vez esse mundo de pesadelos que vive dentro das 10 faixas de The Head on the Door.
Em dezembro, a revista inglesa New Musical Express, bíblia dos amantes de boa música, elegeu como um dos discos daquele ano, ajudou também a propagar ainda mais o sucesso da banda mundo afora, resultando-se numa turnê que durou até 1987. No Brasil, este disco (cuja faixa In Between Days figurava na trilha sonora internacional do remake da novela global Selva de Pedra em 1986) mais a coletânea Standing on a Beach -  The Singles fez a cabeça de muita gente aqui como uma jovem chamada Fernanda Takai, que quinze anos depois, num especial da saudosa revista ShowBizz revelou que este disco mudou a vida dela, e de muitos jovens também. Até hoje, é um álbum com um culto todo enorme, trazendo um legado que, comparado aos outros, têm seu valor e relevância para os jovens de antes e os jovens de hoje, que fazem um som influenciado por essa vibe gótica propagada há mais de 3 décadas atrás.
Set do disco:
1 - In Between Days (Robert Smith)
2 - Kyoto Song (Robert Smith)
3 - The Blood (Robert Smith)
4 - Six Different Ways (Robert Smith)
5 - Push (Robert Smith)
6 - The Baby Screams (Robert Smith)
7 - Close to Me (Robert Smith)
8 - A Night Like This (Robert Smith)
9 - Screw (Robert Smith)
10 - Sinking (Robert Smith)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: Carlos, Erasmo.. - Erasmo Carlos (Philips/Phonogram, 1971)

No decorrer dos anos 1960, Erasmo Carlos formou uma das maiores duplas de compositores de sucesso da história da MPB ao lado de Roberto Carlos, com quem fez diversas canções de enorme sucesso tanto para o “Rei” (Roberto) quanto para o “Tremendão” (Erasmo) e também para outros artistas na época da Jovem Guarda. E foi nessa década em que Erasmo emplacava só sucessos atrás de sucessos durante seu período como artista na RGE Discos, gravadora aonde tinha Chico Buarque (com o “de Hollanda” inicialmente), o sambista Miltinho entre outros. Mas na década seguinte, com o sucesso de Sentado À Beira do Caminho, que estourou de imediato na telenovela exibida na Tupi, Beto Rockfeller protagonizada por Luís Gustavo, e que acabara sendo um dos maiores legados da dupla, acabavam os bons anos na RGE. A Jovem Guarda já deixara de ser um programa fazia anos, Roberto consolidava com seu sucesso mundial e mais sucessos a dupla compunha. Para se ter uma noção, quase toda a Jovem Guarda estava mudada, alguns cantores permearam por uma vertente mais parecida com as canções românticas e outros tentaram ir num caminho mais aproximado da MPB, mas Erasmo não iria ficar a ver navios e eternamente preso à sombra do Rei como muita gente adora dizer, até porque o próprio também tem álbuns interessantes de diversas fases. Foi em 1971 que viu tudo mudar de rumo: assinava com a Philips - que estava com um elenco de peso (bota peso nisso), e ali iniciou uma nova fase na sua carreira. Com a produção de Manoel Barenbein e de Nelson Motta - que à época estava ajudando na gravadora com a leva de artistas como o próprio Tim para ajudar a Phonogram a dominar o mercado fonográfico no país - , o álbum Carlos, Erasmo... pegaria carona na onda do sucesso que Tim Maia fazia com seu funk/soul bem brasileiro e bem suingado, aliás, foi o próprio Tremendão quem ajudou o próprio ex-marmiteiro e ex-coroinha a buscar um lugar ao sol, gravando vocais nos discos do amigo. E o disco é reverenciado até hoje pela nova geração, se tornando um dos melhores discos já feitos na história da MPB, mas cuja sonoridade havia se antecipado em seu derradeiro trabalho na antiga casa, Erasmo Carlos & Os Tremendões, que trazia ele num tom mais diferente nas melodias, nos arranjos: o que ele realmente estava afim de fazer, muito alêm do iêiêiê típiico que estava acostumado a fazer há anos. Aqui em Carlos, Erasmo... ele é bem acompanhado por músicos como o genial Lanny Gordin na guitarra, o baterista Flávio de Barros nesse time, Sérgio Sznelwar no baixo e em algumas faixas também contam com os Mutantes nas bases, mais precisamente Sérgio Dias na guitarra, Dinho Leme na bateria e Liminha no baixo - este último, que depois participara da banda Companhia Paulista de Rock, acompanhando o Tremendão em discos e shows de 1973 a 76.
O álbum já começa bem: uma guitarra suingada é o cartão de visitas para um Erasmo mais na pegada do sambalanço através da faixa De Noite na Cama, escrita por ninguém mais ninguém menos que Caetano Veloso em seu exílio nas terras do chá e do futebol, feita especialmente para o próprio Tremendão e que agradou até Marisa Monte, uma das que regravou este tema maravilhoso anos mais tarde; depois, temos uma baladinha típica com orquestrações em Masculino, Feminino onde ele divide os vocais com Marisa Fossa; as composições da dupla aparecem em É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo, baladinha com ares progressivos e um solo de saxofone arrepiante e pegajoso, fala de como foi longa a caminhada de Erasmo para chegar ao sucesso, e ainda coloca nos versos "Descansar não adianta/Quando a gente se levanta/Quanta coisa aconteceu" como se a gente estivesse a despertar de um sonho que a gente mal imagina o que realmente passou; o lendário compositor uruguaio Taiguara aparece colaborando com Dois Animais na Selva Suja da Rua, com uma pegada bem energizante tanto pelas melodias quanto pela forma que Erasmo dá voz a este tema - um dos melhores deste disco; já mais adiante em Gente Aberta, o clima começa bem soft e acaba puxadão para o soul à la Motown, mais um tiro certeiro de Roberto & Erasmo; e o lado A termina com uma versão bem eletrizante do samba sessentista Agora Ninguém Chora Mais, da autoria de Jorge Ben: um rockzão totalmente elétrico, cheio de solos, lembra um pouco Zeppelin e coros (duvido que estes vocais que acompanham o Erasmo sejam os MPB-4, só acho) que engrossa mais o caldo deste disco; para o lado B, uma história bíblica abre esta segunda parte do disco: Sodoma e Gomorra, com uma voz suavizante e uma levada de bossa que puxa um pouco para o country e pro folk especificamente; e nós temo uma boa dose de otimismo em Mundo Deserto, que faz a gente ter esperança de dias melhores no meio das sombras que eram o regime/ditadura militar e ainda garante: “Tenho fé que meu país ainda vai dar amor pro mundo” numa levada bem soulzeira com ares de rock, bem parecido um pouco com Sly and the Family Stone e também com Funkadelic ao notar o arranjo; Já na faixa seguinte, o Tremendão pede algo que acaba soando ousado demais em Não Te Quero Santa, destacando o excesso de sensualismo (ou uma parte deste) na letra; contraatacando novamente nesse disco, a dupla traz aqui Ciça, Cecília com uma pegada bem jovem-guardista e recheada de metais, e de pegada latina: uma mistura nada de ruim que nos decepcione até aqui; na sequência, um bolerinho psicodélico Em Busca das Canções Perdidas Nº 2 que chega a passar batido, seguido de um tema dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle intitulado 26 Anos de Vida Normal é nada mais que um balanço sincero sobre um homem que passou bom tempo entre o jornal e a televisão, com um wah-wah e arranjos de Rogério Duprat (1932-2006), que também fizera os da faixa que encerra o disco: Maria Joana, uma primorosa ode canábica de Roberto & Erasmo - uma das faixas que a Censura ousou vetar sua radiodifusão e execução em shows ao tentarem justificar que se tratava sobre Joana, filha de Nelson Motta - em uma pegada de mambo, bem à moda caribenha e psicodélica fechando com chave de ouro esta obra-prima.
Basicamente, este trabalho oferece uma mudança radical no som do Tremendão que oferece o que pouca gente conhecia, mais além daquele da Festa de Arromba e também do Coqueiro Verde que estávamos acostumados. Autêntico. Ousado. Diferente. E de tão ousado e diferente esse disco é, que ganhou um espaço merecido na lista dos 100 Maiores Álbuns da Música Brasileira, dando o merecido 31º lugar, e possivelmente figurando possivelmente em alguma lista dos melhores álbuns rock brasileiro e que ganhou reedição internacional em vinil através do selo Light in the Attic, destacando seu valor aqui e lá, além deste também Erasmo Carlos & Os Tremendões e inclusive Sonhos & Memórias 1941-1972 também foram reeditados no exterior.
Set do disco:
1 - De Noite na Cama (Caetano Veloso)
2 - Masculino, Feminino (Homero Moutinho Filho)
3 - É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
4 - Dois Animais na Selva Suja da Rua (Taiguara)
5 - Gente Aberta (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
6 - Agora Ninguém Chora Mais (Jorge Ben)
7 - Sodoma e Gomorra (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
8 - Mundo Deserto (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
9 - Não Te Quero Santa (Fábio/Paulo Imperial) 
10 - Ciça, Cecília (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
11 - Em Busca das Canções Perdidas Nº 2 (Sérgio Fayne/Vitor Martins/Saulo Nunes)
12 - 26 Anos de Vida Normal (Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle)
13 - Maria Joana (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)

domingo, 10 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: 88 - Xutos & Pontapés (Polydor/PolyGram, 1988)

O ano era 1988, dia 29 de julho. O local? Pavilhão do Clube de Futebol Os Belenenses, à noite. Um palco montado, uma plateia sedenta de barulho e de música boa que os fizessem tirar o pé do chão até não aguentarem mais. Quem iria subir naquele palco? Os Rolling Stones? Não! Prince? Também não! Michael Jackson? Um pavilhão pequeno para receber uma megaestrutura de grande porte... só se fosse no estádio do Alvalde ou Estádio da Luz, mas não é tão longe demais, ou seja, não! Os artistas que iriam subir àquele palco era uma banda portuguesa de rock que estavam dominando as paradas através de canções que os jovens se identificavam mais, eram os Xutos & Pontapés. Eles estavam a gravar um disco ao vivo naquele dia, mais os dias 30 e 31 de julho daquele mesmo ano e lançado no final do ano como um presente de Natal aos fãs e para Portugal, logo antes de fechar com tudo a década mais bizarra porém marcante e épica. O show fora gravado meses depois de seu quarto álbum de estúdio, que mantinha a fórmula que agradou multidões com Circo de Feras (1987), e a banda parecia realmente se manter no pique do álbum anterior. A voz e o baixo pulsante de Tim com a guitarra rítmica matadora de Zé Pedro e a guitarra principal cheia de solos do João Cabeleira mais a batida super-agitada e até agressiva de Kalú com o saxofone de Gui traziam uma sonoridade que ia muito além do punk tradicional que eles faziam desde o começo. 10 anos de fundação da banda, muitos shows no país natal, algumas apresentações Europa afora, era preciso voltar no tempo um pouco e rever toda essa jornada pra pensar: como passou muito rápido para eles, o rock e o pop portuga estavam em alta, desbancando os cantores de intervenção/protesto que ousaram manifestar-se através das belas músicas, e que se uniram contra o fim do Estado Novo, alguns deles se adaptaram, fizeram trabalhos excelentes. Quando o álbum Circo de Feras havia lançado, a banda iniciava shows para promovê-lo, e 21 dias depois, Portugal chorava a morte de José Afonso - compositor e professor, que durante os anos 60 e 70 teve obras censuradas e proibidas de serem executadas no rádio e na televisão, morrera em decorrência de uma esclerose lateral amiotrófica, doença que teve o acompanhado cinco anos antes, e que o obrigou a se afastar dos palcos e das atividades artísticas - e desde então Portugal se sentia meio órfão de um nome que fosse tão forte e significativo para a música de sua terra a partir de então. Pois bem, os Xutos seguiram com a responsabilidade de representar bem o país assim como Amália Rodrigues, como Sérgio Godinho, como Luís Represas, entre outros - eles agora eram grandes musicalmente e midiaticamente, os veículos o viam como um autêntico conjunto popular, e a legião de fãs aumentava mais e mais. Com o 7º single lançado após Circo, a banda se viu num papel maior, pois este mesmo single trouxe três temas que podem ter antecipado um estouro da boiada maior do que antes: um era o instrumental A Minha Aventura Homossexual Com o General Custer - título bem longo e bizarro por sinal, mais outra inédita que era Sou Bom e uma regravação de um tema lá dos anos 50, que fora muito popular por Milú (1926-2008): estamos falando de A Minha Casinha, um tema essencial para a carreira da banda e que se tornou um hino para o grupo e que na versão de Tim e companhia, ganhou mais popularidade do que antes.
Gravado ainda em 87, perto do final do ano, o disco 88 tinha um peso enorme de se manter como um sucessor fiel ao trabalho anterior, e tinha mesmo: mantendo temas que fizessem tanto sucesso, não tinham como decepcionar público e crítica mesmo. A produção ficou por conta de Ramón Galarza, baterista do grupo Tempo, depois trabalhou em 1978 na clássica ópera-rock de José Cid, o aclamado 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, e depois com o baixista Zé Nabo, que havia participado também do álbum de Cid, participou da Banda Sonora que acompanhou Rui Veloso nos primeiros anos e gravando o clássico Ar de Rock em 1980, e que com os Xutos também acompanhou em shows nos teclados e percussão, e também teve Paulo Junqueiro, ex-estagiário de assistente de estúdios em Lisboa que também tinha passagens históricas como assistente de estúdio no Nas Nuvens, estúdio do Rio de Janeiro de propriedade do produtor Liminha, e já adquiria uma experiência trabalhando com Ira!, Titãs, Ultraje a Rigor, Gilberto Gil, Kid Abelha, Blitz dentre outros, e que formou essa dupla produtora que esteve ao lado dos Xutos até Gritos Mudos (1990), o disco menos popular de todos os álbuns do quinteto. O álbum começa bem, temos As Torres da Cinciberlândia, um rock daqueles bem fiel ao que a banda faz, com o sax de Gui, e fala sobre um lugar muito diferente, e soa como um rock bem dançante, como aqueles dos 50 que tinham essa sincronia, mas com aquela pegada bem suja e massacrante que está presente na sonoridade do grupo sempre; na sequência, um riff de guitarra já nos apresenta a um dos principais sucessos deste álbum, estamos falando de À Minha Maneira, que traz uma energia bem rock e que não faz a gente se decepcionar, o que é excelente quando se ouve; o que esperar de uma canção narrando a história de um cara que pretende viajar de Bragança à Lisboa, com 9 horas de distância, mas que nada o possa impedir? Bom, se você ouviu a faixa da qual estávamos nos referindo que é Para Ti, Maria, pode acreditar, esse tema também consegue manter essa vibe de hit atrás de hit no lado A do disco, muito comum até; por diante, a gente não deixa aqui de falar sobre Nós Dois, com um pouquinho de sensualidade em alguns versos, o personagem começa a imaginar quando se encontra com sua amada e se pergunta "O que vai ser de nós dois?/O que virá depois?" sendo que esta segunda pergunta é acrescentada no final da canção; ainda que contamos também com Andarilhos no repertório, este tema já é um pouco lembrado às vezes, mas não deixa passar batido aqui com sua melodia e a voz de Tim entoando "E eis que chega o amanhã/É levantar, seguir viagem/Adeus, adeus/Toma coragem pr'o teu destino", e aqui lembra até um pouco as histórias de quem viaja por aí em busca do destino certo - bem poético demais; se ainda há música que se salva nesse disco de tão boa, esta é Carta Certa, que carrega uma pegada bem apegada ao country, uma levada que una Johnny Cash e Hank Williams com Ramones dando muito certo, não sendo uma das mais conhecidas do disco, têm um valor pelos fãs quando se trata deste tema; e por dante, ainda contamos também com Doçuras, um tema bem aperfeiçoado nos arranjos, não muito suave, com um baixo que chega a se destacar mais que as guitarras de costume, quase um tema morno, mas não tanto, quase não sentimos a ausência da bateria de Kalú aqui nesta faixa; com seus 4 minutos e 35 segundos de duração, e a mais longa do disco, podemos sentir o exagero das guitarras gritantes e de um riff que chega a durar com um só toque, vemos também que Enquanto A Noite Cai é um grande tema do álbum que se destaca, uma das mais lembradas deste disco nos concertos até hoje; em seguida, o próximo tema há um pouco do velho punk rock setentista, carregado de agressividade sonora (como sempre) em Botas, que deixa um gosto de "quero mais" até, mas não erra feio no som e na letra, para a felicidade dos fãs; e encerrando o disco, contamos aqui com Prisão em Si, um tema que vai crescendo aos poucos, traz ruídos de botas e portas, chega a ser quase instrumental e só aos 2:11 que ouvimos Tim cantando "E numa prisão em si, não saindo do que é seu, foi esquecido e adormeceu", como se fosse um sujeito refletindo sobre a vida na prisão, e termina assim o disco, sem muito do que reclamar; mas, quem tem as edições em CD, sabe que são 2 faixas a mais que estendem um pouco o repertório do disco, com estas duas das três faixas do popular 7º Single, abrimos aqui com Sou Bom, um punk mais ou menos que dá um pouco pro gasto, apesar da letra parecer redundante e com algumas frases que escapam dos clichês do tipo "sou do Brasil" que ajudam a dar um escape no que lembra até as canções influenciadas pela poesia concreta, com repetições de palavras e tudo mais; e fechando mesmo o disco no CD ou no digital, temos aqui o clássico A Minha Casinha, gravado há mais de quarenta anos pela atriz já citada Milú e que com o grupo se tornou de vez um hino para eles e para os fãs, jamais deixando de ser ignorada nos shows que eles fazem.
O disco vendeu muito bem, por sinal, sendo até hoje um dos maiores álbuns de sucesso do grupo, seguiram o ano estampando diversas capas de revistas, fazendo muitos programas televisivos, e surpreendendo aos fãs no Natal com um álbum ao vivo triplo, captado das 3 noites no Pavilhão d'Os Belenenses toda a energia da banda e do público. E pensar que Zé Pedro, antes de nos deixar em 30 de novembro de 2017 não tenha pensado: tudo isso que obteve através do sucesso com a banda que ele criou não foi em vão realmente, que ele merece mesmo todo o respeito não só pelos fãs do rock português, mas por toda a música portuguesa em geral. E esse respeito pode ser notado na lista feita em 2009 pela revista Blitz unindo os 40 melhores álbuns portugueses dos anos 1980, dando a 88 o merecido 17º lugar, 10 posições atrás de Circo de Feras, e também de Cerco (1985) com apenas 3 posições de diferença, já que este mini-LP está no 14º lugar, mostrando todo o papel da banda para não só uma, mas para várias gerações.
Set do disco:
1 - As Torres da Cinciberlândia (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
2 - À Minha Maneira (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
3 - Para Ti, Maria (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
4 - Nós Dois (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
5 - Andarilhos(Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
6 - Carta Certa (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
7 - Doçuras (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
8 - Enquanto a Noite Cai (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
9 - Botas (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
10 - Prisão em Si (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
FAIXAS BÔNUS EM CD, EXTRAÍDAS DO "7º SINGLE" (1987)
11 - Sou Bom (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
12 - A Minha Casinha (Silva Tavares/António Melo)

sábado, 9 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: Circo de Feras - Xutos & Pontapés (Polydor/PolyGram, 1987)

Com apenas oito anos de estrada, dois discos gravados e multidões a lotar shows como sempre foi costume, não é difícil negar a existência do grande sucesso do conjunto musical de punk rock português Xutos & Pontapés, surgida após um festival na França, mais precisamente em Mont-de-Marsan, e nessa multidão dois jovens se impressionavam com a barulheira e a sonoridade pesada ao extremo, eles eram Carlos Eduardo Cardoso Pinto Ferreira e José Pedro Amaro dos Santos Reis, futuramente Kalú e Zé Pedro (falecido recentemente), que voltara a Portugal e cede a garagem dos pais para uma banda semeadora do punk nas terras do fado, Os Faíscas, da qual Zé Pedro se tornara manager, e conseguindo alguns shows por aí. Com isto, inicia-se uma jornada maior para a vida do jovem empresário da banda punk, ele começa a chamar alguns amigos, como o estudante de Engenharia Agronômica e baixista António Manuel Lopes dos Santos - o Tim, mais José Leonel dos Santos Pinto Perfeito (sem trocadilhos) vulgo Zé Leonel e Paulo Borges, na mesma garagem dos pais de Zé Pedro nascem os Delirium Tremens, nome dado ao estado de abstinência de álcool, com alucinações, agitação e confusão - vale lembrar que este nome não durou muito no começo. Depois de nomes meio zuados, como Beijinhos & Parabéns, eis que nasce definitivamente o nome Xutos & Pontapés, grupo que surge de uma vertente totalmente punk rock, mas sai Borges que ficaria no vocal e o jovem Tim decide assumir o cargo de vocalista principal com a saída de Paulo Borges, e neste período a bateria começa a ter o papel principal no que Kalú é chamado após um teste. Alguns shows, a popularidade se expande, juntamente de bandas como GNR (Grupo Novo Rock), Heróis do Mar, Os Delfins, Sétima Legião, Rádio Macau e cantores como o barbeiro António Variações (1944-1984) dono de uma trajetória efêmera, porém brilhante, e também o grande Rui Veloso - um nome bem conhecido e que carrega um estilo que une um pouco do blues e das canções populares de José Afonso (1929-1987), Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto dentre outros, a cena roqueira portuguesa crescia, e os veículos de imprensa quase não entendiam o que estava acontecendo, mas notaram que o pop rock português, enfim, estava no mesmo rumo da cena de Londres, New York, Los Angeles, e assim também estavam os espanhois através de bandas como a lendária Tequila, e no Brasil idem, mas deixa pra outra análise aqui. Bem, passados quatro anos após o lançamento do primeiro álbum, e recém-contratados não por um selo português, mas por uma grande multinacional, a Polydor - um dos tantos selos da PolyGram, que obtiveram após o sucesso de Cerco (1985) seu segundo álbum e um pouco mais curto, com 6 músicas e apenas 27 minutos de duração, era provável para muitos, que, em uma grande gravadora o grupo não iria manter seu estilo de sempre, mas estavam absolutamente errados, já tendo João Cabeleira (ex-Vodka Laranja) na guitarra substituindo Francis e Gui no sax, até então um mero convidado, mostraram que a banda não estava totalmente perdida: com a produção de Carlos Maria Trindade, dos Heróis do Mar, o grupo entrou em estúdio no fim da primeira metade de outubro de 1986 e só saiu lá no último dia do ano, o resultado? Só em fevereiro do ano seguinte.
Tim, Zé Pedro, João Cabeleira, Gui e Kalú em meados dos 80
Lançado originalmente no dia 2 de fevereiro de 1987, o álbum Circo de Feras acabou vendo o grupo de vez como um dos maiores do rock e os botando no topo de Portugal, assim como grandes figurões da música local. A capa, mostra a banda no estilo bem punk como se pode notar, roupas pretas e olhares sérios na qual Tim aparece sério segurando o baixo como se fosse uma espécie de aviso: somos nós os donos do pedaço, quem faz a coisa acontecer somos nós, e com letras de forte visão crítica, mas também apelando pro amor sem fugir do tom ativista presente nos versos de cada canção do disco. A começar aqui com a faixa inicial Contentores, que trata sobre a vida dos trabalhadores da coleta de lixo, com tons futurísticos, e no final há um grito de Tim e da banda pedindo "um pouco de fé", numa pegada bem pop oitentista, bateria programada e sintetizadores que combinavam com aquele clima que a música nos oferece; continuando, a próxima faixa também traz guitarras que chegam a gritar em Sai Prá Rua, não deixa a essência se perder, e até nos versos curtos a instrumentalidade prova que os Xutos não esqueceram do primor cru e sujo do punk rock, um tema relevante mesmo; na sequência, o repertório segue com ruídos de quem volta pra casa à noite, de animais e a temática apresentada em Pensão é a de um cara apaixonado por uma moça - possivelmente uma prostituta, e que oferece uma vida melhor "De qualquer maneira/Tiro-te daqui/Daqui para outro lado/Onde possa mexer em ti" e pode ser comprovado (ou não) a teoria que citei em "Num quarto alugado/Numa pensão qualquer/Vais ter de me dar/O que tens a oferecer" não deixam mais outras suspeitas que se tenha noção nos versos desta; ainda mais por diante, nós temos aqui o lamento de um sujeito à beira do mar em Desemprego, com um toque bem blues-rock cheio de energia e de perfeição, até porque sendo punks, às vezes tem que fazer algo totalmente perfeito; e no próximo tema, há uma dose de suavidade, meio jazz, meio new age em Esta Cidade, na qual Tim vive um sujeito mais rebelde com passagens policiais, e que chega a ter um falso final, até que volta com as características sobre o personagem e suas características, e depois fecha com seus 2:24 que preenchem a primeira parte do álbum, ainda com um clima sonoro morno que não erra;em diante, temos aqui presente um dos grandes temas de destaque e que fez muito sucesso não só no disco mas em todos os recitais da banda, estamos falando de Não Sou o Único, que traz risadas no começo, que traz um verso muito citado para relembrar Zé Pedro falecido recentemente "E quando as nuvens partirem/O céu azul brilhará/E quando as trevas se abrirem/Vais ver o sol brilhará", trazendo um clima de positividade para a gente; para a próxima canção, temos uma sequência instrumental que vai até 1:20 quando Tim entoa os versos de N'América, que fala um pouco sobre a evolução do consumismo, o mundo moderno e tudo mais que se imagina; em seguida, outra pedrada com seus menos de 5 minutos, um tema que também não faz feio conosco e mostra o peso e toda a essência que o Xutos há de oferecer em Vida Malvada, outro grande hit do grupo, e que seguiu presente nas apresentações do conjunto mundo até hoje; e fechando o disco, com uma entrada de bateria programada, com um riff marcante de guitarra, e o sax de Gui, temos aqui Circo de Feras, que eternizou para sempre o grupo, com versos que ficam na nossa mente, e repleto de "quero-te tanto" que faz soar como uma canção de amor até, regravada 12 anos depois pelos Titãs no álbum de covers As Dez Mais, uma das únicas interpretações de artistas não-brasileros, e depois vieram a fazer show juntos no palco Sunset do festival Rock in Rio em outubro de 2011 devolvendo essa reverência a Tim, Zé Pedro e cia. Passados os anos, o sucesso que a banda teve graças a este disco e também ao seu sucessor 88, o grupo nunca teve que parar - apesar de um período meio obscuro em que Gui ficou afastado do grupo por alguns anos e voltou à tempo de participar da turnê de 2001 que resultou no registro ao vivo Sei Onde Tu Estás! do ano seguinte, e em 2009 o álbum foi eleito como o 7º dos 40 melhores álbuns portugueses dos anos 80, atrás de clássicos como Independança dos GNR e do clássico Ar de Rock, de Rui Veloso, também grandes clássicos desta geração.
Set do disco:
1 - Contentores (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
2 - Sai Prá Rua (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
3 - Pensão (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
4 - Desemprego (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
5 - Esta Cidade (João Gentil/Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
6 - Não Sou o Único (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
7 - N'América (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
8 - Vida Malvada (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)
9 - Circo de Feras (Tim/Zé Pedro/João Cabeleira/Kalú Ferreira/Gui)

domingo, 3 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: Cantigas do Maio - José Afonso (Orfeu, 1971)

Meia-noite e vinte e dois minutos do dia 25 de abril de 1974, estúdios da Rádio Renascença, ao executar os primeiros segundos da canção Grândola, Vila Morena - escrita pelo cantor, compositor, professor e ativista político José Afonso, ou também conhecido como Zeca Afonso, como queiram - iniciava-se a senha para a nova revolução que se estourara naquele Portugal depois de seus 40 anos de regime salazarista, e foi assim... num toque, que o Movimento das Forças Armadas (MFA) iniciaram a deposição do regime estadista, iniciado no final da década de 1920 com Óscar Carmona sendo eleito para comandar o país, depois, em 1933, entra a figura António de Oliveira Salazar, que governara Portugal até 1970, ano em que falecera. No seu lugar entrara Marcello Caetano, já sabendo que não ia segurar este país, teve apenas quatro anos na administração, e no célebre 25 de abril, o MFA iniciou a tomada de lugares que estavam com forte presença, e em seguida, pessoas foram às ruas com cravos celebrar o fim do Estado Novo que ficou 48 anos nos nossos irmãos portugueses. E onde fica José Afonso mesmo nessa história mesmo? Ah sim, suas músicas até antes da Revolução dos Cravos foram todas proibidas suas execuções pela censura, seus discos estavam à venda, mas não poderia cantar em shows, programas de rádio e televisão na sua querida terra, então, fora de lá poderia cantar o que sentia por seu país, inclusive a Vila Morena, composta dez anos antes, quando fora convidado a participar do 52º aniversário da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense (SMFOG) em 17 de maio de 1964, e se impressionara com o ambiente fraterno e solidário daquelas terras alentejanas, e de pronto, esperou um tempo para poder gravar. Na época, o músico estava vivendo em Moçambique, e por isso ficou um pouco distanciado do seu país com tanta repressão, e por lá lecionava como professor e iniciava seu ativismo, uma forma diferente de se sustentar além da música, para poder ajudar nas despesas da casa, com a esposa Zélia e os filhos José Manuel e Joana - nascida em 1965, um ano depois da passagem por Grândola, onde surgiu seu clássico. Voltara lecionando em Setúbal, mas devido à seu estado de saúde, fora expulso do ensino, mas não parava nunca de mostrar sua indignação àquele governo que atormentou por anos Portugal, fora preso diversas vezes pelo PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado) por seus vínculos a movimentos comunistas, outro motivo para censurarem seus discos, livros e poemas. No final dos anos 1960, já tinha se consagrado em discos por um selo português de Arnaldo Trindade chamado Orfeu, que tiveram relevância para o público, como Cantares do Andarilho (1968) mais Contos Velhos Rumos Novos (1969) gravados com um toque natural: acústico e acompanhado de um violão e de uma guitarra portuguesa. Na década seguinte, com Salazar morto, e o início de uma expansão do movimento pró-democracia portuguesa, após quase 5 décadas de um regime duro que balançava, só que ao invés de não cair, já sabia que um dia iria ser derrubado: Afonso teve que se afastar por várias vezes do país, deixou um álbum pronto para ser lançado: Traz Outro Amigo Também, editado no Natal de 1970, antecedendo o seu próximo trabalho convertendo-se em algo mais rítmico, mais harmonioso, e dando continuação a seu cancioneiro de protesto, batendo de frente contra a adminsitração de Marcello, e sofrendo a proibição de sua radiodifusão e execução pelos censores mesmo assim. Nas terras francesas, encontrara refúgio maior, e na cidade de Hérouville, havia um casarão que foi transformado em um estúdio onde gravara Elton John, David Bowie, Bee Gees, Pink Floyd dentre outros artistas: e ali nascia seu quinto álbum de estúdio e de carreira, o clássico Cantigas do Maio, responsável por abrir as mentes com seus versos fortes e críticos, que soa extremamente atual nos tempos de hoje.
O álbum do nosso personagem desta review têm suas gravações iniciadas em outubro de 1971 e foi até novembro, quando na época, até na América do Sul havia ameaças a artistas por seus posicionamentos políticos que não agradavam os militares, que governavam alguns países - exceção do Chile, que era governado pelo comunista Salvador Allende até ser deposto pelo general Augusto Pinochet em 1973. Mas, com Afonso, houve também muitas ameaças e perseguições, em Paris o negócio foi outro, tendo ali um estúdio muito em alta, utilizado por nomes do pop, Zeca não estava só, além de Carlos Correia - conhecido também como Boris - nas guitarras e vocais, o time contava com Francisco Fanhais na percussão, os franceses Michel Delaport na percussão, Christian Padovan no baixo, Tony Branis no trompete e Jacques Granier na flauta, com a direção musical e os arranjos de um ainda desconhecido José Mário Branco no órgão Hammond, piano elétrico Fender e acordeom, este, que vivia por lá, pois estava exilado desde o fim da década anterior e terminara seu álbum de estreia Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades - também engajado politicamente nas canções, mas pela então gravadora novata Guilda da Música à época. Com o disco pronto, Cantigas do Maio veio a aparecer como um presente de Natal para as massas de esquerda e também aos opressores, avisando que ele não estava sozinho e muito menos calado, com um toque mais experimentalista e um pouquinho psicodélico até, falando a verdade, não tão viajante quanto um Sgt. Pepper's tampouco como um Electric Ladyland à moda portuguesa, com certeza. Ao iniciarmos a escuta, tempos uma tentativa de iniciar a música e um sujeito em francês comunicando-se com os músicos, a entrada começa novamente e Senhor Arcanjo inicia-se, uma cantiga bem fácil, com uma pegada bem tradicional das cantigas lusitanas, com uma batida bem África pelo que se nota no ritmo; na faixa seguinte, temos um som de uma sanfona bem chorada, executada por Zé Mário e que abre logo Cantigas do Maio, aonde ele lamenta no refrão "Minha mãe, quando eu morrer/Ai, chore por quem muito amargou/Para então dizer ao mundo/Ai Deus, ai Deus, ai Deus 'mo' levou" como se narrasse a dor de uma mãe que perdeu um filho para os militares, só que esta é uma hipótese sobre o significado, não é que seja, mas... cada um entende à sua forma este clássico; continuando a análise do repertório deste álbum, ainda temos aqui um tema do folclore, que nos créditos do álbum, a adaptação foi feita pelo produtor (Branco) em Milho Verde, bem fiel ao tema, sem muita modificação na letra - o que já é bom por sinal; e na sequência, a história de uma moça chamada Catarina, que segundo o autor - logo o próprio Zeca, o Alentejo a viu nascer e morreu esquecida - tudo isso formam os versos de Cantar Alentejano, que lembra um pouco os fados coimbrãs tradicionais, com direito a "ooooooo" de tom operista como se estivesse num ambiente mais de arrepiar a gente; e abrindo o lado B deste álbum, nós temos o clássico importante, o hino e senha para a Revolução dos Cravos, lógico que estamos falando da já citada Grândola, Vila Morena - que começa com sons de passos, frases invertidas nos versos com direito a um coro potente, como se fosse o povo que estivesse cantando, vale destacar a frase "Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade" que simboliza uma Portugal unida pelo fim do Estado novo àqueles tempos, e que soa mais atual do que nunca e também fora regravada por Amália Rodrigues, musa e eterna voz do fado, logo mais tarde; outro tema de protesto importante neste disco que sucede a faixa anterior é Maio Maduro Maio, que imaginava uma celebração mais democrática do 1º de maio, o Dia do Trabalho, com um solo de flauta que parece encantar os nossos ouvidos com uma forma que marca a gente; já a próxima faixa, narra a história de uma moça já mais velha que sai a vender erva, com um ambiente surreal, aqui conhecemos a tal Mulher da Erva, com uma sonoridade mais profunda no arranjo que chega a passar batido, mas que vale a pena; em seguida, podemos contar com outro personagem célebre das canções: o Arlindo Coveiro dos versos de Ronda das Mafarricas, que tem sons de mola e também uma viola bem tocada aqui, sem errar feio nos acordes; e para fechar este disco, mais um tema de protesto, encerrando com peso aqui, o Coro da Primavera é visto aqui como um aviso aos estadistas que administravam Portugal com um refrão marcante "Ergue-te, ó sol de verão!/Somos nós os teus cantores/Da matinal canção/Ouvem-se já os teus rumores/Ouvem-se já os teus clamores/Ouvem-se já os teus tambores" como se fosse um aviso final antes de acontecer um caos revolucionário, e com um coral que ajuda a crescer este refrão de forma potente, arrepiante do primeiro até o último segundo sim.
Este disco se tornou peça essencial para a música portuguesa, não apenas para aqueles que vivenciaram o fim dos tempos obscuros para o país, mas também como um despertar da nova era que estava por vir. Zeca interpretou muitas das canções deste disco em seus shows até 1983, quando se afastara após a sua doença que o acompanhava desde sempre, estar mais forte e o impossibilitando de seguir ativo cantando e compondo, vindo a falecer em 23 de setembro de 1987, vítima de uma esclerose lateral amiotrófica. Menos de sete anos depois do lançamento (1978), o jornal Sete, através de 28 especialistas, decidira fazer uma lista elegendo os melhores discos de sempre já feitos em Portugal, e ele figura no primeiro lugar, depois, em fins de 2009, a revista portuguesa de música Blitz fizera uma lista com os melhores álbuns de música portuguesa dos anos 70, e Cantigas do Maio está plenamente na pole position soberanamente, mostrando seu papel cultural e político ao mesmo tempo para a história dos nossos irmãos. Zeca, saiba que teu legado não morreu, pois "Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade" quando lembramos do que fizestes pelo teu país e pelo direito de uma Portugal mais democrática.
Set do disco:
1 - Senhor Arcanjo (José Afonso)
2 - Cantigas do Maio (José Afonso, sobre refrão popular tradicional)
3 - Milho Verde (tradicional do folclore português, adaptado por José Mário Branco)
4 - Cantar Alentejano (José Afonso)
5 - Grândola, Vila Morena (José Afonso)
6 - Maio Maduro Maio (José Afonso)
7 - Mulher da Erva (José Afonso)
8 - Ronda das Mafarricas (António Quadros)
9 - Coro da Primavera (José Afonso)



sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Um disco indispensável: The Wall - Pink Floyd (Harvest/Columbia Records, 1979)


O disco que converteria o Pink Floyd na verdadeira supremacia do rock mundial, o insuperável The Dark Side of The Moon (1973) trouxe ao grupo uma responsabildade máxima de seguirem ousando como sempre, algo já muito notável desde a saída de seu principal líder, vocalista e fundador Syd Barrett (1943-2006) devido ao pesado consumo de LSD na época, já nos extremos de sua fase “alucicrazy” e substituído pelo guitarrista David Gilmour, especialista em voz cristalina e precisão nos acordes de guitarra, que acabou ajudando a banda mudar todo o rumo da sonoridade floydiana no ápice definitivo nos discos lançados entre 1968 e 1972 até chegarem ao ponto definitivo como o já citado disco de 1973 e brevemente, os seus sucessores, Wish You Were Here (1975) e Animals (1977), este lançado já num momento muito tenso pois a banda de Waters, Gilmour, Wright e Mason estavam tendo crises internas e gerou a Waters um momento que originou uma de suas mais célebres obras-primas na história da música: durante um show da tour que promovia o disco Animals, houve um momento em que Waters começou a dar seus sinais de desgosto num ano em que o punk e a disco music prevaleciam nos últimos suspiros dos dourados anos 70 e bandas progressivas estavam em decadência – logo, a geração de Yes, Genesis, Emerson Lake & Palmer e inclusive do Floyd estavam sendo chutadas pelo público e algumas bandas iriam entrar numa onda mais pop e mais radiofônica no auge, e foi só preciso que o cabeça e baixista do conjunto durante a turnê In The Flesh acabasse realizando o ato de cuspir em um fã durante a última apresentação da turnê em Montreal (Canadá) e dali ele acabou tendo um brainstorm no qual ele imaginava estar construindo um muro e isolando-se do público. Assim nascia The Wall, porém, demorou muito para que o disco ficasse pronto, pois tanto Gilmour e Wright quanto Mason estavam ocupados trabalhando em projetos paralelos durante uma boa parte de 1978: o guitarrista lançara um álbum solo, Mason estava produzindo o álbum Green, de Steve Hillage e Wright estava na Grécia trabalhando em seu projeto solo e foram só meses depois, que a banda se reunira pela primeira vez após este período de férias no Britannia Row Studios na qual Roger apresentara dois projetos para álbuns conceituais: o primeiro era uma demonstração de 90 minutos com o título de Bricks On The Wall, o que causou tamanha impressão dos colegas de banda rapidamente. O segundo projeto se tratava sobre os sonhos de um homem em uma noite na qual se tratavam sobre o casamento sexo, além dos prós e contras da vida familiar e monogamia versus a promiscuidade: este viria a ser The Pros and Cons of the Hitch Hiking, álbum solo de Waters, também todo conceitual. O primeiro projeto acabou sendo o escolhido e a proposta deste disco foi colocar um produtor para se responsabilizar deste trabalho: logo foi indicado Bob Ezrin, pela então namorada do baixista, Carolyne Christie, que havia trabalhado como secretária do próprio Ezrin, já aclamado como o responsável por parte do conjunto da obra de Alice Cooper durante o começo daquela década.
A serenidade no olhar de quem fez a maior
ópera-rock da história quase todo sozinho
Mas, como nem tudo são flores para uma banda de nome mundial, e logo o próprio Floyd, um problema que se refere à economia do quarteto progressivo acabou quase os falindo e eles precisavam economizar os custos para realizarem mais um trabalho e após a Norton Warbug Group (NWG) ter investido quase três milhões de dólares do grupo em capital de risco para tentar reduzir as obrigações fiscais – mas nada acontecia de certo e a banda acabara pedindo a devolução de fundos não investidos, e brevemente rompendo uma parceria. O fator “custos” acabaria sendo necessário de vez para que a banda realizasse o tal projeto de 26 faixas e partisse logo para o estúdio, desta vez fora da Inglaterra: entre janeiro e julho de 1979 o Super Bear Studios, na França – foi o primeiro a receber as sessões da banda, e depois nos EUA que tiveram sido marcadas por questões artísticas entre Waters e Wright – que foi demitido numa suposta discussão, mudanças na equipe de produção, mas acabou que o disco foi feito, tendo James Guthrie como engenheiro principal e co-produtor do trabalho. As orquestrações ficariam a cargo de um nome que já tinha se consolidado nas trilhas sonoras de filme e arregimentando para músicas pop daquela época, Michael Kamen (1948-2003), com a ajuda de Ezrin, que esteve acompanhando nos estúdios da Columbia em New York, sem a banda acompanhando por perto. A icônica capa, que trazia em todo um muro detalhado, com linhas detalhando os tijolos, foi feita não pela equipe de Storm Thorgerson, uma vez que Waters tenha brigado com ele colocar algumas capas em seu livro com a Hipgnosis, Walk Away René, ficara distanciado deste projeto, e o conceito gráfico ficou nas mãos de Gerald Scarfe, um cartunista que houvera colaborado com a banda na In the Flesh Tour através de caricaturas exibidas nos telões, o logotipo do álbum não aparecera nas primeiras edições estampado na capa, mas como adesivo, e isso só mudou nas edições posteriores sejam pela Harvest (Inglaterra) ou no restante do mundo (Columbia Records/EMI Music) em que o logo aparece mesmo na parte da capa, e na interna (gatefold/capa dupla) diversas imagens que giram em torno do ambiente que é o disco.
A história de um astro que nasce no meio da 2ª guerra, órfão de pai, vivendo com uma mãe dominadora que a superprotege e um sistema educacional completamente sem muita sensibilidade, ele acaba se sentindo isolado e começa a criar um muro em sua mente, isolando-se do resto do mundo, e o resultado do conceito poético deste disco é impressionante: a narrativa de um personagem fictício chamado Pink que vivencia os dilemas e sofrimentos, cada um transformado em um tijolo deste mundo do personagem, repleto de niilismo. Sendo um disco que carrega uma atmosfera bem profunda, Waters acertou em cheio na hora de criá-lo, sem ignorar o papel de Gilmour, Mason e de Wright aqui, além de alguns músicos de apoio, da orquestra regida por Kamen e por Ezrin, uma das cabeças que fez o sucesso deste disco possível, que se tornou um dos álbuns mais vendidos da própria banda e também de todos os tempos, superando até mesmo Dark Side, permanecendo por quinze semanas no topo da Billboard, fechando os 70 e abrindo os 80 sem perder o pique. Para abrir a primeira parte desta obra conceitual, vamos com In the Flesh? embalada por um harmônio no começo, mas que ganha peso sonoro rapidinho, e um órgão que não decepciona a gente, tem uma pegada bem blueseira que só ganha versos a partir de 1:34, mas também mostra o começo da história do personagem que gira em torno do disco; em diante, temos por aqui The Thin Ice, que começa com choro de bebê, é como se tratasse do sofrimento ao perder seu pai naqueles anos pesados de guerra, com piano e sintetizadores dando um clima mais vibrante que é fácil de notar; a partir da próxima faixa é que o conceito de muro vai ganhando mais poder de forma simbólica, com uma guitarra bem tocada na primeira parte do tema Another Brick in the Wall, com todas as angústias e uma pergunta autobiográfica do baixista “Daddy, what you leave behind for me” (Papai, por que você me deixou pra trás? – tradução livre), e notando que era só mais um tijolo no muro, mais um bloco que formava, e a parte instrumental considero morna, porém de potência enorme, e sucedida por ruídos de helicópteros e um grito como se um professor estivesse dando uma bronca, aí que entra a violência dentro das escolas sendo retratada em menos de dois minutos ambientados em The Happiest Day of Our Lives, e começa aí o desabafo de todo um sistema educacional que maltratava de forma errada, continuando Another Brick in the Wall na sua célebre segunda parte com o verso “We don’t need no education/We don’t need no thought control/No dark sarcarsm in the classroom/Teacher leave them kids alone” (Nós não precisamos de educação/Nós não precisamos de controle de pensamento/Sem sarcasmo na sala de aula/Professores, deixem as crianças em paz” com um coro de 23 pré-adolescentes entre 12 e 14 anos de uma escola de Londres, Islington Green e cada um teria ganhado supostamente 500 libras (eita!) para participar da gravação, e finalizava com um professor gritando com os alunos e termina com um som de telefone; na sequência, um tema mais desplugado, mais calmo, aonde Waters expõe o sofrimento à sua mãe nos versos de Mother, em seus 5 minutos e 35 segundos que depois acaba ganhando um solo de guitarra brilhante, e sem perder o primor; a faixa seguinte traz sons de pássaros e aviões e um jovem dizendo “Look momy, there’s na aeroplane up in the sky” e assim inicia Goodbye Blue Sky, que traz um pouco a inocência de crianças ao verem aviões no céu e remonta o ambiente dos bombardeios britânicos à Alemanha nazista em 1941 na época e com uma vibe bem bucólica nos arranjos, voz e violão; para esta faixa que vem a seguir, o ambiente é um Pink mais amadurecido: casado, em crise devido à sua distância criada pelo muro à meia-construção, e isso é o que surpreende em Empty Spaces, que ainda carrega mensagens subliminares, que se girar ao contrário, há uma referência a Syd Barrett possivelmente, visto como Old Pink, de forma cômica até, mas nada tão suspeito demais por diante; e o nosso personagem agora é um astro do rock famoso que, quase nunca está presente em casa, como se pode notar em Young Lust, e começa a envolver até groupies, quando Pink começa a trazer algumas delas para sua casa e faz festa – típico do dogma “sexo, drogas e rock & roll” que todo mundo já conhece, a pegada fica mais hard no arranjo e encerra com Pink dialogando ao telefone enquanto a música vai diminuindo de volume – o famoso fade que todo mundo sabe; e a história envolvendo a groupie e Pink continua na próxima canção, intitulada One of My Turns, ela tenta chamar sua atenção até que ele se explode e ela foge da casa, sentindo pena do personagem – com um riff de guitarra que não faz feio como muitos dos temas do álbum; toda essa narrativa das faixas anteriores – o caso com a groupie, o casamento em ruínas, ambientados em Don’t Leave Me Now, com seus 4 minutos aqui, como se ele estivesse a desabafar sobre seus traumas e começa a reviver tudo de novo, e nos últimos 3 minutos ganha ritmo e mais peso melódico, que arrepia até a alma de qualquer floydiano que se preza; ainda contamos em diante com a parte 3 e derradeira do clássico Another Brick in the Wall, que começa com objetos quebrados e mostra Pink decidindo permanecer dentro do muro, com o peso da segunda parte, e a melodia permanece na faixa seguinte: Goodbye Cruel World, na qual o protagonista dessa jornada fica mais solitário pelo muro psicológico e se despede das pessoas, como se ele ainda estivesse decidido a ficar para sempre ou não, o que só será desvendado na segunda parte.
"Vou seguir revivendo meu legado na banda sim, mesmo perdendo o processo
para meus ex-parceiros, e seguirei a reviver com uma turnê do mesmo nível"
E o disco 2 abre logo de cara com a continuação da sua despedida, por meio da canção Hey You, aonde ele tenta pedir ajuda para tentar sair daquela situação que o deixava preso e separado do mundo, com uma pegada mais sofisticada no violão, mas o ritmo é um pouco agressivo até ganhar mais força com solos de guitarra, e é impressionante o resultado; e a pergunta que não quer calar os ouvintes leva até mesmo o nome de uma canção que continua essa busca por ajuda: Is There Anybody Out There? – nada mais do que um grito de socorro, com direito a sons de gaivota feitos por Gilmour e sintetizadores de cordas executados por Ezrin com o título de simples verso que se repete no decorrer da faixa, traz um clima mais zen nos arranjos, mas não tão careta demais, dá continuação ao tema que se mantêm no tema a seguir; se na faixa anterior, uma frase reinava soberanamente, aqui em Nobody Home podemos ter uma boa dose de solidão e momentos reflexivos, aonde se vê apenas com seus bens materiais, como se estivesse falando sobre sua vida ilhada do muro,e também traz uma visão de Waters sobre o show ocorrido em 77, com um peso emotivo nos arranjos, é outra daquelas canções que nos faz até pensar sobre essa questão de isolamento e também de afastar-se de uma vida social quando nos sentimos só; há espaço para homenagens a ídolos da geração da II Guerra, como a cantora Vera Lynn, popular nos anos 1940, aqui é reverenciada em menos de um minuto e quarenta segundos na canção Vera, com direito à citação da música We’ll Meet Again, seu maior sucesso naqueles tempos, como se estivesse revendo memórias do passado num instante flashback, daqueles marcantes; e mais em seguida, com o rufar de tambores, temos Bring the Boys Back Home, com uma levada de hino, bem preso à tonalidade de marcha, com o verso “Wrong, do it again” (Errado, faça de novo – tradução livre) que aparece em Another Brick in the Wall – Part 2, aquele diálogo do professor que nós havíamos citado bem antes; a canção que vêm a seguir, ela surgiu originalmente das demos do primeiro álbum solo de David Gilmour e entrou para este disco que estamos falando, e se tornou uma das melhores canções deste álbum e da banda em geral – estamos falando de Comfortably Numb, com um arranjo orquestral maravilhoso (feito por Kamen), uma pegada que lembra até mesmo o Floyd dos discos anteriores e com um dos versos do refrão que marca a gente “There is no pain you are receding/A distant ship's smoke on the horizon” (Isto não é a dor, você está recuando/Uma fumaça do navio está distante no horizonte” ambienta uma espécie de realismo da “dor” que a pessoa tem, apresenta um Gilmour brilhante nos solos de guitarra e um dos melhores da banda e deste disco em especial, podem acreditar; e para este disco, Waters se inspirou tanto ao concebê-lo que teve até influência dos Beach Boys para os vocais que ambientam na música The Show Must Go On, e teve até a presença de Bruce Johnston nos vocais que ajudou muito, e mantêm um clima suave mesmo em seus 1:36 de duração mesmo assim; a imagem do nosso Pink que vamos vendo nas próximas canções é de um cara que está em seu estado extremo de alucinação e começa a se ver como um ditador logo na faixa In the Flesh, com uma energia menos prog e mais hard, que parece estar realmente sendo ambientada em um show, como se ele estivesse dando um discurso político – bizarro e empolgante são as palavras que temos a definir; e com essa imagem autoritária vista pelo personagem, que começa a mostrar esse perfil ainda em Run Like Hell, com um fraseado de guitarra e melodia semelhante ao de The Happiest Day of Our Lives, e mostra um Pink rindo diabolicamente e com um único solo de teclado em quase todo o disco; na sequência ainda aparece um tema totalmente fiel ao conceito das outras três anteriores em que ele se vê um ditador nas suas alucinações e se sentindo quase um Hitler em estado lúcido e esta faixa é Waiting for the Worms, com uma pegada bem hard rocker nos arranjos e até surreal o conceito poético desta faixa; mas, quando tudo parecia estar ao extremo, as alucinações acabam deixando de acontecerem, começa a se cansar da sua pose de ditador e também do próprio Muro descrito em todo o disco, e nos 30 segundos de Stop, e começa a se perguntar: se tudo ao que levou a este muro não teria sido culpa sua esse tempo todo, o que nos leva ao final da epopeia do disco em pouco tempo; e é por aqui, meu amigo, que começa a desmoronar este muro criado pelo personagem, logo em The Trial, com seu arranjo superproduzido, com toques de música clássica, narra um julgamento e começa a ressurgir personagens que tiveram passagens, sua mulher, sua mãe, seu professor e no fim a Corte o obriga a viver socialmente o mundo real, uma opereta basicamente; e o muro que fora desconstruído de vez, o protagonista começa a ser reintegrado à sociedade, encerrando de vez logo em Outside The Wall, que conclui o seguinte: se você mesmo não derruba seu próprio muro, as pessoas que começam a entrar vão se rendendo e te deixando a viver uma vida solitária – uma das únicas músicas gravadas sem Gilmour, Mason e Wright, traz um pouco mais de calma e quase se tornou a primeira a abrir o segundo disco, tal como The Show Must Go On seria a que encerrava, mas ficou assim mesmo o conceito.
Sem deixar de lado os aspectos crítcos quando fora lançado, é possível lembrar que o disco se tornou um dos processos mais complicados para o grupo, com mais músicos do que apenas o comum nos trabalhos anteriores, conseguira superar até mesmo Animals e também Wish You Were Here no que diz respeito da forma de produção, o superfaturamento quase não levou o projeto adiante. Com o lançamento, houve as opiniões de gente por tudo quanto é lado, desde os fãs da banda até os críticos, que viram com surpresa a transformação musical do grupo. Foi eleito como um dos melhores álbuns dos anos 70 em algumas listas de revistas como da Q, da Mojo, da Rolling Stone – esta revista que também elegeu na 87ª posição dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, provando realmente sua importância para a música e a cultura pop em geral. A banda fez uma turnê com poucas apresentações em 1980 e 81, pelo fato de ser uma estrutura que custava quase dois Villa Mix e a cinco Rock in Rios, à época, e depois registradas em CD vinte anos depois em um material duplo intitulado Is There Anybody Out There? The Wall Live 1980-81, e depois, mais um álbum e Waters decidira tomar um rumo diferente na banda. Depois de largar a banda após perder uma batalha judicial contra seus ex-integrantes, que poderiam seguir em turnê como Pink Floyd, ele fez um show em 1990 na Berlim reunificada em frente ao que era o Muro de Berlim, depois recriara o show em uma megaturnê que durou de 2010 a 2012, depois documentado em filme. Além de ter se tornado um filme, totalmente fiel ao disco, com uma faixa ou mais que não ganhara versão cinematográfica, lançado em 1982 com a direção de Alan Parker e protagonizado por Bob Geldof, à época, vocalista dos Boomtown Rats, e depois organizador do Live Aid, que depois teria uma edição comemorativa de vinte anos - Live 8 - com o Floyd reunido pela primeira vez após mais de duas décadas, e também sendo a última apresentação com os quatro em palco, pos Wright, como sabem, veio a falecer de câncer em 15 de setembro de 2008, e na época do álbum ficara como músico de apoio e participando da turnê. Enfim, é o disco que precisa ser ouvido e reouvido para entender o conceito do personagem, do ambiente, e que seguirá atravessando gerações para sempre.
SET DO DISCO 1:
1 – In the Flesh? (Roger Waters)
2 – The Thin Ice (Roger Waters)
3 – Another Brick in the Wall, Part I (Roger Waters)
4 – The Happiest Day of Our Lives (Roger Waters)
5 – Another Brick in the Wall, Part II (Roger Waters)
6 – Mother (Roger Waters)
7 – Goodbye Blue Sky (Roger Waters)
8 – Empty Spaces (Roger Waters)
9 – Young Lust (Roger Waters/David Gilmour)
10 – One of My Turns (Roger Waters)
11 – Don’t Leave Me Now (Roger Waters)
12 – Another Brick in the Wall, Part III (Roger Waters)
13 – Goodbye Cruel World (Roger Waters)


SET DO DISCO 2:

14 – Hey You! (Roger Waters)
15 – Is There Anybody Out There? (Roger Waters)
16 – Nobody Home (Roger Waters)
17 – Vera (Roger Waters)
18 – Bring the Boys Back Home (Roger Waters)
19 – Comfortably Numb (David Gilmour/Roger Waters)
20 – The Show Must Go On (Roger Waters)
21 – In the Flesh (Roger Waters)
22 – Run Like Hell (David Gilmour/Roger Waters)
23 – Waiting for the Worms (Roger Waters)
24 – Stop (Roger Waters)
25 – The Trial (Roger Waters/Bob Ezrin)
26 – Outside The Wall (Roger Waters)