terça-feira, 17 de outubro de 2017

Temas Indispensáveis: Funk da Lama - Zeca Baleiro

Imagine-se num show de MPB onde o artista é um homenzarrão de 45 anos, e no final deste recital, ele juntamente de sua banda começam a se juntar no palco para uma performance, em que ele e a banda ficam de pé, sérios, como se estivessem dando um recado ao público. E aí este sujeito anuncia uma música inédita, com diversos tons de ironia e uma coreografia sacana: esse é um tema indispensável e seu autor é ninguém mais, ninguém menos que o genial compositor maranhense Zeca Baleiro, em seus quase 20 anos de estrada, tinha feito um trabalho  2012 intitulado "O Disco do Ano", e com esse trabalho, viajou Brasil e mundo afora com a tournée do álbum, e com isso, veio uma música inédita nas apresentações. Na época, o que estava em voga na música já não eram mais o visual colorido do Restart, muito menos bandas como Hori, Hevo 84, Stevens, Cine dentre outros. O momento agora era do sertanejo, sem perdão, onde você estivesse, iria haver sempre rádios e programas televisivos mostrando os novos homens do sertão: a imagem típica do bom moço da cidade, que só atola na lama em época de rodeio e vai pra fazenda apenas pra passar uns dias, sem ter pegado enxada - os jecas modernos. Surgiam duplas novas, que desta vez, não iam apenas se manter em um som mais acústico e melódico como os de César Menotti & Fabiano, Victor & Leo, Paula Fernandes dentre outros. O negócio é botar arrocha da Bahia, o funk do Rio de Janeiro, a música eletrônica, e fazer disto uma balada à moda caipira, algo que deixaria Tião Carreiro se revirar de desgosto no caixão. As bandas de rock já não eram tão presentes na geração, e se prestarmos melhor atenção, o pop com todo o seu vigor, estava lançando mais nomes do que nunca. O Brasil vivia uma questão de esperanças na política, pois Dilma Rousseff estava em seu 1º mandato, mas havia muitas questões mal-respondidas sobre o futuro com ela na administração, e o PT vivia com o medo de desesperanças com a volta do Mensalão no banco dos réus - era o julgamento do maior escândalo político até aquele momento, e Lula estava se recuperando de um câncer, protagonizou também uma das mais polêmicas cenas do ano, quando junto de Fernando Haddad, apareceu cumprimentando Paulo Maluf - um dos carrascos da política e da esquerda brasileira, mas ficou despercebido esse momento. E o mundo quase acabou no 21 de dezembro, porém, a previsão feita pelos ancestrais maias, não acertou em cheio, fazendo com que este mundo continue a rodar e a acontecer como sempre. E Zeca, mostrou aos fãs que o mundo estava, literalmente, na lama, nos sentidos culturais e políticos, tanto é que não foi à toa que o título da música se chama "Funk da Lama", talvez uma de suas melhores composições ao longo de sua carreira.
No show, ele brinca que, como o funk está totalmente na moda, e as músicas coreografadas idem - era de se esperar uma música um tanto mais engraçada, também uma mensagem dirigida a Michel Teló, paranaense criado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e que estourou instantaneamente na região Centro-Oeste com o grupo Tradição, e foi o grupo que o ajudou a crescer como artista até partir para a carreira solo em 2009, quando decidiu entrar na carreira solo, por onde lançou as canções "Ei, Psiu, Beijo, Me Liga", "Amanhã Sei Lá", "Fugidinha" e também "Ai Se Eu te Pego", tema que se tornou viral na 2ª metade de 2011 e seguiu o ano seguinte inteiro. E foi essa música, o viral mundial vindo de terras brasileiras, que deixou a MPB surpresa demais: uma letra simples, com uma coreografia que se repetia até nos jogos de futebol, que acabou se tornando uma simples e concreta resposta ao tipo de música que era considerada sucesso naquele momento. O contexto de crítica social faz parte do decorrer da música, e faz uma breve análise de não importar se é isso ou aquilo, se é um ou outro, e ainda coloca um semi-refrão "você vai ter que responder pelo que faz/você vai ter que responder pelo que diz", como se estivesse dando um aviso, sobre todo e qualquer absurdo publicado e/ou compartilhado nas redes sociais, ou também sobre as coisas que qualquer pessoa - famosa ou anônima - fala nas mídias, seria uma crítica aos comediantes do CQC e do Pânico também? Devido ao fato de perseguições aos artistas/celebridades? Não se sabe bem, mas ao decorrer da música, ele fala sério, e ainda traz o sentido cômico novamente nos versos "Bota a mão nas cadeiras, vai até o chão com graça/A moral do chão não passa/Bota a mão nas cadeiras, dança com malemolência/Bota a mão na consciência" - como se pedisse para o ouvinte refletir sobre o tipo de cultura que está seguindo. Ainda temos o verso que mais se identifica com os funks típicos - sejam eles os ousados ou os mais tradicionais "Vem, cachorra/Nem precisa de cama/O mundo tá atoladinho/O mundo tá atoladinho na lama", com referências a funks como "Atoladinha" do MC Bola de Fogo, sucesso em 2006, que também é meio que um tiro, mas não de misericórdia, aos versos de funk que entram de cabeça na nossa mente. Em suma, é aquele Zeca Baleiro que temos motivos para amar e amar, não sendo um chato, apenas vendo o Brasil de uma forma como poucos podem concordar, tanto faz se de tom crítico ou se de uma simples ironia, é o que ele mais sabe fazer de melhor.


domingo, 15 de outubro de 2017

Um disco indispensável: The Voice of Frank Sinatra - Frank Sinatra (Columbia Records, 1946)

E assim nasceu o LP. O disco de vinil. Maior que os compactos. Com capa e tudo. Mas ainda portava os compactos em 78 rpm, mesmo assim. No mínimo 4 apenas. E de quem era o primeiro disco? O primeiro deste formato? O primeiro disco era de ninguém mais, ninguém menos de que Frank Sinatra, o maior cantor que já existiu na história da música. Mas, antes de falar sobre este disco, vamos voltar ao começo de tudo. Muito antes de ser o homem que encantou multidões, o homem que cantava Strangers in the Night, o homem de I've Got You Under My Skin, o homem de In The Wee Small Hours, o homem de New York, New York e também o homem de My Way, o mundo ainda não tinha lugares com seu nome, estrela na Calçada da Fama de Hollywood, diversos Oscars e Grammys ou ainda mais certificações de discos de ouro, platina e diamante quando em 12 de dezembro de 1915, na pequena Hoboken, cidade do estado norte-americano de New Jersey, um casal de origem italiana  acabava tendo um garoto, que nem imaginava que o mundo o veneraria mais tarde. Seu nome? Francis Albert Sinatra, que mal nasceu e já começou a ter uma passagem triste na sua infância - a começar pelo parto, que foi traumático, pois os fórceps deixaram sequelas nele, como um tímpano perfurado, uma cicatriz atrás da orelha e do pescoço e só foi batizado em abril de 1916. Desde pequeno, Sinatra desenvolvera uma personalidade forte, debochada e revoltosa, devido ao boxe, paixão que herdou do pai, o siciliano Antonio Martino Sinatra Saglimbeni, boxeador profissional na categoria peso galo e dono de uma taberna que atendia de noite, pois era bombeiro de dia. Sinatra começou a desenvolver seu talento para cantor na taberna de seu pai ainda na primeira metade da década de 1920, acompanhado por uma pianola, e depois de um ukulele. Na época, o jovem Frank desenvolvera um estilo misturado, que tinha como principais referências os grandes Bing Crosby, o primeiro cantor de grande sucesso na época e pioneiro do artista multimídia no século XX, e Al Jolson, que em 1927 chocou o público no filme O Cantor de Jazz (The Jazz Singer - título original) usando uma blackface para incorporar um personagem negro - o que hoje seria considerado extremamente racista demais para os justiceiros sociais. Eis que, em 1932, vem a conhecer sua primeira esposa, Nancy Barbatos, também mãe de seus 3 filhos: Frank Jr., Nancy e Tina, e foi com ela que viu Bing na que seria sua última aparição em palco, e depois se encontrariam anos mais tarde, quando este rapaz de New Jersey já estava dando passos maiores. Mais adiante, a sua trajetória como cantor ganha passos maiores ainda, pois em 1934 começara a participar do concurso radiofônico Major Bowes Amateur Hour, e se apresentava acompanhado dos Three Flashes, que depois seriam chamados como The Hoboken Four, e que lhes rendeu o 1º lugar, com um prêmio importante: uma turnê patrocinada pelo programa, mas as desavenças com seus companheiros foram maiores que tudo e Sinatra voltou pra casa. Mas, com a experiência que vinha desenvolvendo como cantor de rádio, ele acabou descobrindo que tinha um timbre vocal diferente de Crosby, de Jolson, e com essa passagem como cantor de rádio, fez tornar-se popular em toda a América através daí, e foi assim que o mundo inteiro também conheceu Frank Sinatra, pelas ondas sonoras (ainda que com chiados e tudo) do rádio. 
Mas, como em todo seu grande começo, sempre tem um pequeno impasse para deixar a carreira um pouco complicada, algum episódio osso dentro disso tudo, e foi uma prisão em 1938 (que até rendeu uma imagem famosa), por se envolver com uma moça - casada por sinal, o que rendeu uma imagem suspeita ainda, pois se diz que houve adultério. Mas, no ano seguinte, viu a sorte grande acontecer: já casado e tendo experiência na rádio, Sinatra iniciara sua jornada de vez sendo um dos crooners da orquestra de Harry Arden, e depois consolidara-se verdadeiramente como um artista a nível nacional. Começava a ser reconhecido por nomes diversos, dentre eles, Harry James, trompetista da famosa orquestra de Benny Goodman, e que para tentar se manter em turnê com uma das orquestras mais populares, iria ter muitos desafios, situações financeiras, e até que segurar pra poder sustentar os filhos, pois Nancy já tinha dado a luz de duas crianças naqueles tempos. A orquestra chegou a se dissolver, mas Sinatra acabou sendo chamado para fazer parte de outro band leader, Tommy Dorsey - que juntamente de Goodman, de Count Basie e de Glenn Miller - formavam uma espécie de grupo sagrado dos regentes de orquestra, acabou dando uma visibilidade maior, e logo em seguida, assinava um contrato com a Columbia Records em 1942, a sua primeira gravadora onde fez seus primeiros registros fonográficos, considerados clássicos logo direto. Com uma gravadora e muitos shows ao redor da América, foi assim que se construiu um grande ídolo do pop e também um dos maiores nomes da história da música, obviamente. Passados os anos, estando entre os cantores mais populares, e fazendo um imenso sucesso entre as mulheres - que se desesperavam para conseguir alguma coisa dele, foto ou autógrafo (inclusive, foi o crush/amor platônico de eternas jovens daquela geração), em junho e em dezembro de 1945, grava algumas músicas que se resultaram num material que estaria tudo junto em uma caixinha com uma imagem, e dentro uns quatro compactos: assim surgiu o long-play, o famoso LP. Com uma contracapa, e oito faixas (duas em cada compacto), o álbum The Voice of Frank Sinatra, seu primeiro registro completo na discografia, entra para a história da música com este trabalho lançado em março de 1946, com a orquestra de Axel Stordahl, conseguiu mudar de vez o universo da música e do mercado fonográfico em especial.
Sinatra e Axel Stordahl em estúdio, nos anos 1960, anos depois
do álbum "The Voice" lançado pela Columbia.
Para falarmos sobre este álbum, The Voice of Frank Sinatra, vamos também tratar de um contexto histórico, o disco surgiu em meio a tantos fatos históricos: o mundo estava de boas com o final da II Guerra Mundial, embora muitas vidas haviam sido perdidas, inclusive, a do maestro Glenn Miller, mas ainda haveria um legado trágico deixado no Japão após a bomba atômica que tirou vidas em Hiroshima e Nagazaki. Os EUA ainda começavam uma guerra pesada contra a então União Soviética, que envolvia para ver quem tinha mais armamento e quem iria conquistar o espaço - o que resultou na Guerra Fria, e que duraria até a derrubada da URSS apenas 45 anos depois. Desde então, o mundo começou a mudar pelos conceitos, tanto pelo político e social, quanto da questão de avanços na tecnologia, o mundo ia mudando de vez, a televisão - nova companhia da sociedade para se entreter - ainda era algo que só viria ao Brasil anos mais adiante, mesmo porque o único jeito de entreter o público ainda era o rádio, aonde a voz de Sinatra ganhou presença mundialmente. Com isso, vamos resumindo este trabalho como sempre, faixa por faixa: a começar com You Go to My Head, que começa com doces melodias de cordas, que são sucedidas pelo vozeirão de Frank, nos fazem se sentir apaixonados, com a cabeça em outro planos, é um dos grandes temas de destaque deste trabalho; já mais adiante, temos aqui uma da dupla George e Ira Gershwin, que fez Someone to Watch Over Me, com seu belo conjunto de harmonias em mais de três minutos, e é algo indescritível mesmo; outro clássico muito conhecido por nós que figura neste disco é These Foolish Things (Remind Me of You), que aqui na sua voz trouxe uma potência enorme e é um tema que todos os fãs reconhecem a versão deste álbum com os arranjos; e para completar, ainda temos também neste repertório um tema do lendário compositor Cole Porter, que foi diversas vezes regravado por Frank, e Why Shouldn't I? traz uma sutileza melódica nos arranjos dignos de temas dos anos 40, que ganham os ouvidos e os corações de diversos fãs, não importando a geração que veio - se junto dele ou depois dele; ainda podemos contar também com I Don't Know Why (I Just Do), que complementa o repertório e mantendo esse equilíbrio entre as canções, ainda com uma guitarra a se juntar nesse conjunto de harmonias da canção; e um outro grande tema de destaque presente neste disco é Try a Little Tenderness, um clássico originalmente feito em 1932 composto por Jimmy Campbell, Reginald Conelly e Harry M. Woods, uma das mais belas canções que depois ganhou também a voz de Patti Page, Sammy Davis Jr, Tom Jones e a imortal versão do lendário soulman Otis Redding, exatas duas décadas depois da versão do vozeirão de Hoboken, para ser mais preciso; na sequência, o disco ainda conta com um tema de um dos cantores que se tornou referência para ele - Bing Crosby, que juntamente de Ned Washington e Victor Young compuseram (I Don't Stand) A Ghost of Chance, que aqui não decepciona a gente de vez ao ouvir, e Bing deve ter gostado também; e para fechar o disco, nós ainda temos a faixa Paradise, uma das mais antigas canções deste disco, é de 1931, e é da autoria de Nacio Herb Brown em parceria com Gordon Clifford, e acaba combinando com o final do disco, com a voz bem suave e os arranjos com tons quase calmos, fechando assim o primeiro de muitos discos da carreira dele. Apesar de não estar em muitas listas, ele merece valor pela forma como introduziu o formato de disco mais completo, ainda que sendo um mero conjunto de 78rpms na época, e como disse, mudou para sempre, a forma de consumir música, que nunca deixou de ser coisa ultrapassada até hoje.
Set do disco:
1 - You Go to My Head (Haven Gillespie/J. Fred Coots)
2 - Someone to Watch Over Me (George Gershwin/Ira Gershwin)
3 - These Foolish Things (Remind Me of You) (Holt Marvell/Jack Strachey/Harry Link)
4 - Why Shouldn't I? (Cole Porter)
5 - I Don't Know Why (I Just Do) (Roy Turk/Fred E. Albert)
6 - Try a Little Tenderness (Harry M. Woods/James Campbell/Reginald Connelly)
7 - (I Don't Stand) A Ghost of Chance (Bing Crosby/Ned Washington/Victor Young)
8 - Paradise (Nacio Herb Brown/Gordon Clifford)

sábado, 14 de outubro de 2017

Um disco indispensável: "Heroes" - David Bowie (RCA Victor, 1977)

Em 1977, o artista britânico David Bowie estava aos poucos se recuperando da maré baixa que havia o deixado um pouco sem rumo antes, com o disco Station to Station que foi uma tremenda viagem e do qual ele sequer lembrou do processo e da divulgação, seguido do filme The Man Who Fell on Earth, aonde ele incorporava tanto no disco, quanto no filme, o Thin White Duke, com os cabelos um pouco alaranjados, um de seus tantos alter-egos criados pelo camaleão do rock, que na época estava mergulhado na cocaína e morando em Los Angeles - àquela época era uma das cidades aonde havia mais consumo de drogas nos EUA, ou seja: nada fácil para o nosso astro multifacetado da música. Para fugir desse desconforto pessoal, ele decidiu se autoexilar no Velho Continente, mais precisamente na Suíça primeiro - onde iniciou novas atividades, como a fotografia e a pintura, depois buscara contato com o experimentalismo e a música conceitual de John Cage e Philip Glass por meio da Brian Eno, que após ter dito que gostava de Station to Station foi contratado para trabalhar com ele no Château D'Hèrouville, na França, a produzir e conceberem juntos o álbum Low, a sua incrível volta por cima, totalmente eletrônico, futurístico e de outro mundo - assim como Bowie, e o resultado foi superando as expectativas, e iniciando assim, a sua mais brilhante fase - artística e discográfica - que ficou eternizada como Trilogia de Berlim, que rendeu este e mais dois álbuns. Bowie estava na Berlim Ocidental, e sempre ajudando como podia seus amigos e ídolos, assim foi com Iggy Pop, que o ajudou a lançar-se como artista solo através de The Idiot, seu primeiro álbum, e também com Lou Reed, além dele ter sido muito influenciado pelos dois conjuntos alemães de krautrock conhecidos, Kraftwerk e também Neu!, duas principais referências não só para a música eletrônica que se conceituaria e se expandiria ainda mais, mas também inovando a música em geral, indo além dos excessos de sintetizadores - e Bowie acabou adquirindo um pouco dessa sonoridade alemã em seus trabalhos mais adiante, com a ajuda de Eno e de seu produtor Tony Visconti, seu mais onipresente parceiro musical no decorrer da trajetória. Para o próximo disco, seguiria contando com Eno, e desta vez era o disco todo gravado em Berlim e, melhor, com uma ajuda de luxo, de um nome importante do rock progressivo: Robert Fripp, que havia se aposentado durante três anos, o lendário guitarrista do King Crimson e ganha presença forte no disco, e também dos mesmos músicos de sempre, como o guitarrista Carlos Alomar, o percussionista Dennis Davis e o baixista George Murray, parceiros sempre presentes nesta fase do músico, gravado totalmente no Hansa Tonstudios, que ficava perto do Muro de Berlim e vigiado por militares da antiga União Soviética por estar a alguns metros do mesmo. Lançado em 14 de outubro de 1977, o álbum intitulado "Heroes" (é assim que se escreve, com aspas) conseguiu levantar ainda mais a moral e mostrar que Bowie estava em voga e inspirado, é também considerado o mais popular e o predileto da trilogia para muitos fãs - assim como este que vos digita.
-Então Paul, vai dizer que só sua banda fez discos bons neste século?
-Que isso, Bowie! Eu gostei de todos os seus, em especial do "Heroes".
Se precisássemos definir algo sobre este disco, diríamos que é uma metamorfose poética-musical de Bowie sobre a Berlim Ocidental, e talvez o ponto alto de sua carreira após os álbuns que o aclamaram definitivamente, também consegue ser o melhor álbum não somente da fase Berlim, mas de toda sua discografia em especial - digamos que 80% dos fãs colocam este disco em 1º lugar entre seus favoritos de todo o conjunto da sua obra, obviamente. Para começarmos a falar deste álbum, vamos falar de uma faixa em que a cozinha de Bowie, Eno, Alomar, Davis, Murray e Fripp deu muito certo sim, e é na faixa Beauty and the Beast que sentimos a energia vinda desta obra-prima da música, cheia de overdubs, e com um astral 100% potente logo de cara, a guitarra de Fripp mostra estar em astral com o restante da sonoridade da canção; já na faixa seguinte, que traz um título semelhante ao da primeira faixa por lembrar um conto infantil, Joe the Lion, mas aqui o negócio é pesado, e chega a imitar uma banda de hard rock na parte instrumental, mas também concentrada no ambiente do krautrock, e a guitarra consegue gritar muito aqui no decorrer da faixa, ou seja - Fripp fez um ótimo trabalho junto de Bowie aqui; e a grande faixa de destaque neste álbum aparece em seguida, e nós estamos falando de "Heroes" que imortalizou uma das frases do refrão "We can be heroes just one day" (Nós podemos ser herois apenas por um dia - tradução livre), feito em parceria com Eno, e que em 2003, revelou-se que foi baseado em um caso do produtor Tony Visconti com a vocalista de apoio Antonia Maass, e o verso "Standing by the wall (by the wall)/And the guns, shot above our heads (our heads)" (Andando pelo muro (pelo muro)/E as armas, atirando sobre nossas cabeças (nossas cabeças) - tradução livre) foi tirado durante uma passagem pelo Muro de Berlim,  enquanto eram vigiados pelos guardas da Alemanha Ocidental, e assim, uma simples letra, cheia de melodias concebidas totalmente por Eno, ganha o coração dos fãs e do mundo e a voz de outros nomes, como do Depeche Mode, do próprio King Crimson, além de uma versão do Motörhead, gravada meses antes de Lemmy Kilmister falecer em 26 de dezembro de 2015 ou seja: não importa quem cante, essa música acaba te pondo no chão de vez; a próxima faixa é algo próximo de uma suavidade, e Sons of the Silent Age, traz ainda Bowie mandando ver no saxofone, e o título - baseado nas pessoas que nasceram entre 1925 e 1942, fase da Grande Depressão, os chamados Filhos da Geração Silenciosa, para definir melhor - só surgiu apenas no estúdio quando o trio já tinha um conteúdo super pronto ali; fechando a primeira parte do disco, temos um som totalmente calcado e concentrado no rock industrial, com uma vibe que massacra nossos ouvidos logo de cara - e Blackout mostra isso e muito mais, um conjunto de efeitos e overdubs incríveis de Eno, uma guitarra alucinante tocada por Fripp e o ritmo de Dennis Davis dando um tom que combine com o restante, e o resultado? Excelente por sinal. 
O lado B do disco, totalmente instrumental - ou nem tanto - abre de cara com um conjunto de elementos sonoros que formam uma perfeita alquimia na canção intitulada V-2 Schneider, o título é uma homenagem a Florian Schneider, do Kraftwerk, e também coloca o V-2 no meio, que é nada mais do que o primeiro míssil desenvolvido pelo programa alemão nos tempos pesados da II Guerra Mundial, aqui você tem alguns trechos cantados, e o que realmente "grita" além dos sintetizadores e da guitarra é o saxofone executado pelo nosso camaleão, e por incrível que pareça, apesar de a canção ter apenas o título sendo cantado, fez sucesso na Alemanha após se tornar o lado B da canção-título deste álbum como single, para o nosso interesse; a faixa seguinte é um som-ambiente que lembra um pouco as alquimias instrumentais de Low, com sintetizadores imitando vento, cornetas, e tudo isso faz de Sense of Doubt o grande barato do lado B do álbum, ainda com ruídos e efeitos que parecem soar como tema de um filme de ação ou terror logo de cara, sem perder a essência, o piano aqui arrepia os nossos ouvidos logo a cada acorde, totalmente impressionante até aqui, o mais profundo dos temas desse disco; e a continuação de temas instrumentais com diversos elementos sonoros diferentes vai acontecendo em Moss Garden, um tema onde Bowie aparece tocando um koto, instrumento de corda muito utilizado no Japão, e que acaba fazendo uma boa combinação com o restante da parte instrumental, que traz sons de passarinhos e lembra um pouco a new age - aliás, já falamos sobre essa fase de Berlim ter sido pioneira no estilo lá na análise de Low (confira no post), o que já garante o disco inteiro a viagem sonora proporcionada; para fechar a sequência instrumental, ainda temos aqui da dobradinha Bowie & Eno uma música que transborda todo esse experimentalismo, todo esse conceito de uma viagem mais além do que se imagina dentro do álbum, e Neuköln soa como um tema cinematográfico também - poderia ser executada num remake/reboot de Metropolis (1927), clássico da ficção científica dirigido pelo alemão Fritz Lang, ou em qualquer filme do gênero - porque ele têm essa combinação com os ruídos, e o título foi baseado em um bairro de Berlim, para quem não sabe, e encerra com uma guitarra estridente e gritante ao mesmo tempo; o encerramento fica por conta da faixa que transborda um pouco desse experimentalismo, e que é todo cantado, estou falando de The Secret Life of Arabia, tem aqui uma veia poética mais cômica, diferente das faixas anteriores mais sérias e pesadas, e aqui a dupla chama Alomar para colaborar, tanto na parte musical quanto na guitarra - basicamente, o trio consegue fechar esse disco com tudo. Para um bom fã de Bowie, apenas uma reflexão do que ele nos ensinou na terceira faixas, de podermos ser herois, mesmo que só por um dia, ele consegue ser um eterno heroi da nossa música que acertou em cheio ao fazer esse disco.
Vale destacar aqui a capa do álbum, que fora concebida sob as fotos feitas com o japonês Masayoshi Sukita teve como inspiração a pintura Roquairol, do alemão Erich Heckel (1883-1970), inclusive, também inspirou Iggy Pop a fazer sua icônica pose para a foto da capa de The Idiot, seu primeiro LP solo. Influenciando diversos sons da época, como o próprio Joy Division, The Mission, Sisters of Mercy e parte das bandas góticas dos anos 80 (inclusive o Damned quando partiu para uma vertente mais sombria), grupos alemães surgidos naquela época como o próprio Trio, do lendário hit oitentista Da Da Da (Ich Liebe Dicht Nicht Du Liebst Micht Nicht), toda a música pop em geral, inclusive o próprio europop (que ainda tinha aquelas músicas pra cima cheia de cordas e sopros, meio nonsense até), mais nomes como o próprio New Order (nascido da costela do JD), a própria Grace Jones, a cena roqueira do Brasil no comecinho dos 80 pegou um pouco dessa fase, Radiohead, Pixies, enfim - um monte de gente pegou carona nessa fase berlinesca dele (e desse disco em especial) e decidiu colocar em seus sons, tornando essa a fase que mais inspirou a música contemporânea do final do século XX e início do século XXI, sem sombra de dúvidas. O disco, como eu disse, estaria entre os primeiros na lista de favoritos, e está presente em diversas listas dedicadas aos melhores álbuns dos anos 70, e ele está presente na famosa lista dos 1001 Álbuns Para Ouvir Antes de Morrer, antes que alguém esqueça de dizer que não citei sua importância do disco nessa lista.
Set do disco:
1 - Beauty and the Beast (David Bowie)
2 - Joe the Lion (David Bowie)
3 - "Heroes" (David Bowie/Brian Eno)
4 - Sons of the Silent Age (David Bowie)
5 - Blackout (David Bowie)
6 - V-2 Schneider (David Bowie) - instrumental
7 - Sense of Doubt (David Bowie) - instrumental
8 - Moss Garden (David Bowie/Brian Eno) - instrumental
9 - Neuköln (David Bowie/Brian Eno) - instrumental
10 - The Secret Life of Arabia (David Bowie/Brian Eno/Carlos Alomar)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Um disco indispensável: 1999 - Prince & The Revolution (Warner Bros Records, 1982)

Em 1980, não havia ninguém que não conhecesse o talentoso Prince Rogers Nelson - ou simplesmente Prince, mal sabia o que estava perdendo desse cara, visto como uma das novas caras da música pop surgida no final dos anos 70. O baixinho de Minneapolis, cidade do Minnesota tinha chegado ao topo com I Wanna Be Your Lover, do seu segundo álbum que levava seu próprio nome em 1979, após uma estreia muito despercebida em For You, ele se consagra definitivamente como um dos nomes do pop, do soul, do R&B e também da música em geral. No começo dos anos 1980, ele formara uma banda que seria seu maior suporte por seis anos, a The Revolution: originalmente surgidos como The Rebels, a banda era formada além de Prince nos vocais principais, guitarras e piano, Jill "JJ" Jones nos vocais, Andre Cymone e depois Brown Mark no baixo, Dez Dickerson na guitarra, Bobby Z. na bateria e percussão, "Dr." Matt Bobby Fink nos teclados juntamente de Lisa Coleman mais adiante acompanhavam Prince nos shows e às vezes no disco, uma vez que o suposto Prince seria um multiinstrumentista superdotado, produtor e até engenheiro dos seus próprios discos (ACHOU QUE EU TAVA BRINCANDO???). Ou seja, o cara fazia de tudo, e aí só deixava algumas partes para a banda gravar numa boa, e foi assim quando aconteceu o álbum Dirty Mind, lançado nesse mesmo 1980 em que a The Revolution estreava, mesmo que não creditados ainda no disco. O sucesso era indescritível, algo que levava multidões a irem atrás do jovem e talentoso músico, o mais novo queridinho do pop, mesmo que esse título ficava mais com Michael Jackson. Por quê, meus caros leitores e leitoras? Michael já tinha estrada e estava se consolidando como solista depois de anos visto como o pequeno talento dos Jackson 5 (na época, The Jacksons, devido ao fato de a Motown ter mantido esse nome após eles romperem o contrato), porém nunca houve uma grande rixa entre ambos, pois tinham as mesmas influências musicais e seria muito raro ouvir algo sobre os dois. Mas, passou o tempo e Prince seguia fazendo sucesso como nunca, dominando as paradas e fazendo a cabeça e os ouvidos da juventude na pista de dança, e com o estouro de Dirty Mind, o momento era de seguir o baile, e foi assim em Controversy (1981): a forma como acontecia seu sucesso era impressionante, e logo de cara manteve a boa maré de vendagens dos dois álbuns anteriores. E junto de Controversy, veio na mesma época a emissora televisiva Music TeleVision, a nossa queridíssima MTV, que conseguiu popularizar ainda mais o conceito de "música e vídeo" ou seja: o artista não precisava mais depender de fazer vídeos da mesma música para programas diferentes, exibido em países diferentes, não. Agora você tinha como lançar um videoclipe próprio e ser mandado para outras as emissoras, tanto antes quanto depois do surgimento da MTV, e Prince foi um dos primeiros nomes lá no comecinho da emissora a se consagrarem nessa emissora durante seu surgimento. Um de seus primeiros clipes a acontecerem na MTV foi de um álbum que se tornou um dos grandes álbuns de maior sucesso até então: o duplo 1999, lançado em 27 de outubro de 1982, mais moderno, mais eletrônico e mais impactante logo na primeira escuta, ou seja: a forma de como este disco foi feito é algo que marca a gente mesmo.
Gravado num período de oito meses, ou seja, de janeiro até agosto, nos estúdios Kiowa Trail Home Studio, no Minnesota - seu estado natal, e no lendário estúdio de Hollywood, Sunset Sound, e nesse período, Prince desenvolveu experiências com bateria eletrônica e sintetizadores, fazendo programações e loops que resultaram nas 11 faixas deste clássico, e também vale destacar aqui a capa, um pouco psicodélica, e que traz o nome da Revolution numa espécie de bola de futebol americano escrita ao inverso, e também com elementos da capa do álbum anterior, vale lembrar que em 1983, o disco foi lançado em duas partes no Brasil e em alguns outros países, o que deixou muitos fãs decepcionados pois esperavam receber o pacote completo e não pela metade: na capa do primeiro você tinha Prince sensualizando no que parece ser um ambiente de motel, e na capa do segundo volume você tinha a banda junto em destaque num cenário meio futurístico, mas quem conseguiu com a capa original importada teve sorte mesmo. O álbum já abre com tudo, logo de cara temos a faixa 1999 com uma voz lenta e robotizada dizendo "Don't worry, I won't hurt you/I only want you to have some fun..." (Não se preocupe, não quero machucar você/Eu preciso de você para me divertir - tradução livre) e na sequência, um funkzinho bem suingado movido a sintetizadores, e traz nos primeiros versos as vozes de Dez e de Lisa, e Prince surge bem antes do refrão - algo bem parecido com You Are the Sunshine of My Life, de Stevie Wonder, e vocês sabiam sobre a faixa, que narra um lance apocalíptico, e de questionar se você viveria até não poder mais ou festejar como se fosse 1999, ela ainda não havia sido feita até antes de agosto? Eis que chegou um momento em que os diretores da Warner pediram a ele um tema que pudesse resumir por inteiro a temática do disco, então ele gravou nos últimos do 2º tempo, no dia 7 agosto, juntamente da faixa que a sucede no álbum, mantendo essa energia dançante e futurística que segue no decorrer deste trabalho; e falando na tal faixa seguinte, que começa relaxante e com uma atmosfera pop-zen, e vai crescendo rapidamente, você acaba tendo um clássico de cara, logo Little Red Corvette é o tema que não merece muitas palavras a descrever, e com a potência de um clássico desses, bicho: você sabe que existe uma energia dentro dessa música que é contagiosa ao decorrer desta; já na sequência, temos uma outra faixa que não engana nossos ouvidos, e estamos falando de Delirious, aonde o eu-lírico desta canção assume ter delírios quando está perto da pessoa que ama numa pegada rockabilly totalmente techno, com uma dosagem de blues sintetizado até, que vale a pena de verdade, não é totalmente ruim e com aqueles clichês da época, totalmente a cara do Prince - tudo feito com as suas mãos mesmo; por diante, temos a faixa a seguir, que nos primeiros segundos, uma simples levada de bateria repetida parece imitar uma marcha militar, mas entram os sintetizadores e - temos Let's Pretend We're Married, com uma boa letra, mas que ainda traz uma fusão não só do funk e do techno, mas com um pouco da disco e da new wave nos elementos sonoros, e os sintetizadores fazem um belo trabalho aqui regidos e concebidos pela mesma pessoa; e para fechar a primeira parte disco, temos uma baita pedrada de qualidade, que segue o bailado das canções anteriores, e eu estou falando de D.M.S.R., que signigica Dance Music Sex Romance, tudo o que há de mais surpreendente no universo poético-musical, e que tem uma levada de guitarra à la Nile Rodgers que dá um toque a mais, juntamente do baixo, um dos instrumentos mais ouvidos e totalmente cheio de grooves - o essencial desta música, fechando com tudo a primeira parte do disco.
E já no segundo disco (ou a segunda parte deste, como queiram), já vemos que o excesso de sintetizadores em Automatic, a mais longa faixa deste álbum, com nove minutos e meio, já nos traz uma viagem dentro da canção, e a pegada cai bem, não deixa a gente sem certezas, e prova ser um dos temas de grande destaque do álbum, sim, com os diversos efeitos sonoros made in the 80s, caros leitores e leitoras; já na próxima canção, o bailado segue essa qualidade proporcionada, e não é à toa que Something in the Water (Does Not Compute) consegue manter essa pegada, mais pesada e mais acelerada, com ares de tema de ficção científica, apenas o bom que ele sabe fazer; a faixa seguinte, traz um ambiente de rua, passos militares, carros, mas é sucedida por uma balada mais puxada pro melódico, e Free traz isso: um ar mais profundo, e menos agressivo na música, até que não soa ruim demais; em seguida, nós temos aqui a faixa Lady Cab Driver, com o mesmo ambiente urbano da cidade, eis que se ouve uma voz pedindo um táxi, junto de uma bateria programada, também traz essa referência mais voltada pra disco e pro funk, totalmente original, com direito a um rap no meio da música - com seus mais de 8 minutos, e uma série de solos no restante também mostra uma parte instrumental excelente, evitando perder a magia do som de vez; ainda temos mais outro tema que ganha um clima futurístico pela levada, com um título bem sacaneado, All the Critics Love U in New York, um tema que narra de forma clara sobre a forma como as pessoas como são, e também uma jornada pelo universo neoiorquino das tribos, com uma certa ironia dizendo "Take a bath, hippies" (Tomem um banho, hippies - tradução livre), que lembra um pouco a cidade na visão de cantores como Lou Reed também, depende da forma como observa a poesia da música; e o disco encerra de vez com International Lover, outra baladinha, com um toque mais sensual como em todas as suas canções, com todos os clichês de baladas oitentistas - mas clichês que sempre dão certo como sempre, o exagero nos falsetes, a mudança de tom vocal, fecha assim com chave de ouro a segunda e última parte com uma boa dose de romantismo e suavidade musical, bem agradável como sempre. Resumindo de vez: era o Prince sendo Prince, inovando, arquitetando, e fazendo o que mais sabe fazer de melhor sem perder o primor, até sua morte em abril de 2016.
O disco fez com que suas turnês se estendessem aos quatro cantos do mundo, shows lotados, conquistava ainda mais fãs não apenas do pop e da soul music, agora também do rock, uma vez que ele já estava fazendo algo que misturasse todas as suas influências, o cara tinha as manhas. Já estava preparado também para se despontar como um astro do cinema, protagonizando um dos mais marcantes filmes dos anos 80 com a trilha sonora eternizante que todos sabemos qual é: Purple Rain (leia a review aqui), mas aí já é uma outra história, leitores e leitoras deste blog querido. O disco conseguiu ser também um fenômeno best seller na década, perdendo o posto em seguida para o famoso Thriller, de quem mesmo? Além de ajudar a render diversos prêmios para sua estante, dentre ele, os primeiros Grammys que levara, pela Melhor Performance VocalR&B Masculina, o primeiro de muitos, do qual teria 7 vezes ganho e 33 vezes indicado (olha só). Mas estampando listas diversas dos melhores álbuns dos anos 80 (imagina se não estivesse estampando), e levando a melhor com a 49ª posição na lista dos 100 Maiores Álbuns de Todos os Tempos da emissora televisiva VH1, enquanto da revista norte-americana Rolling Stone figura na 16ª nos 100 maiores discos dos anos 80, e na famosa lista dos 500 aparece com o 163º lugar, provando que esse disco dançante e moderno marcou muito mesmo.
Set do disco:
1 - 1999 (Prince)
2 - Little Red Corvette (Prince)
3 - Delirious (Prince)
4 - Let's Pretend We're Married (Prince)
5 - D.M.S.R. (Dance Music Sex Romance) (Prince)
6 -  Automatic (Prince)
7 - Something in the Water (Does Not Compute) (Prince)
8 - Free (Prince)
9 - Lady Cab Driver (Prince)
10 - All the Critics Love U in New York (Prince)
11 - International Lover (Prince)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Um disco indispensável: Guitarra Portuguesa - Carlos Paredes (Columbia/EMI Valentim de Carvalho, 1967)

Fala-se que não existem grandes músicos portugueses. Isto está errado. Pois até hoje não vejo muitos críticos brasileiros falarem de Carlos Paredes, mestre das cordas, um guitarrista genial. Mas não falo da guitarra elétrica de Jimi Hendrix, Eric Clapton, Steve Vai não... falo mesmo é da guitarra portuguesa, com certeza! Sim, a guitarra portuguesa, instrumento que lembra um bandolim, com um braço até pouquinho maior que o mesmo, ela é um instrumento que ganhou seu valor com o passar dos anos, e tem três tipos de guitarras: a de Coimbra, a de Porto e a de Lisboa, e cada uma das três se distinguem pelas afinações e pelo tamanho, óbvio. A história do talentoso Paredes quase se confunde com a do próprio fado, pois é filho de compositor e guitarrista Artur Paredes, neto e bisneto de Gonçalo e António Paredes, ou seja: seu sobrenome carrega peso e leva dentro de si a música. Nascido na capital do amor em Portugal, a famosa Coimbra em 16 de fevereiro de 1925, oito anos antes do início da ditadura de Salazar, foi aprender com o pai a tocar guitarra aos quatro anos, porém sua mãe queria que ele tocasse piano, e começa também a aprender violino na Academia de Amadores de Música, e aprendeu com duas senhoras o piano e o violino, meio que por vontade de sua mãe. Aos 9 anos, vai para Lisboa com a família, pois seu pai trabalhava como funcionário do BNU e larga de vez o piano e o violino, e se dedica apenas à guitarra. Em entrevistas feitas mais tarde, ele assume que começou a fazer sons e descobrir seu estilo de tocar guitarra, muito diferente de seu pai e de seu avô - vindo pela frente um músico de personalidade impressionante. No final dos anos 1940, encerra os estudos num colégio particular e começa a colaborar com seu pai na Emissora Nacional e trabalha como funcionário administrativo do Hospital São José. Porém, assim como muitos artistas, Paredes sofreu a perseguição do regime salazarista, e foi preso pelo PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) pelo fato de se opor ao governo ditatorial português e assim, vivendo muitos de seus anos, combatendo através de suas músicas - um dom hereditário. E foi assim, nesse período meio negro em que esteve atrás das grades por militar no Partido Comunista, ficou um tempo distante dos palcos, sem poder tocar os portugueses com sua canção, e fora denunciado por um colega de trabalho no hospital. Mas deu a volta por cima na década de 1960, primeiro compondo a trilha sonora do filme Os Verdes Anos, a convite do cineasta Paulo Rocha, e acabou tendo um enorme reconhecimento pelo seu trabalho ao compor a trilha sonora deste filme. Mais em diante, sairia a acompanhar nomes como Carlos do Carmo e também Adriano Correia de Oliveira, dois grandes nomes da música portuguesa e dos fados, para ser mais específico, e seguiu compondo para filmes até que lançasse um álbum individual mostrando todo o seu talento através de Guitarra Portuguesa, seu primeiro álbum, gravado nos estúdios de Paço de Arcos da lendária gravadora Valentim de Carvalho, com o engenheiro Hugo Ribeiro registrando tudo e acompanhado por Fernando Alvim na viola.
Neste disco, o guitarrista consegue romper um conceito de se manter preso à tradição no instrumento, meio minimalista, no estilo das guitarras de Coimbra, e tende a construir peças sonoras e clássicas a cada melodia, como se fosse guitarra clássica: esse é o Carlos Paredes instrumentista, dono de um perfeccionismo incrível. Para falarmos sobre este disco, já começamos bem, a Variações em Ré Menor nos orienta de cara a um som que lembra pouco as cantigas medievais, às origens de Portugal, com os solos mais maravilhosos, deixa o som fluir mais nos nossos ouvidos; já na faixa seguinte, Porto Santo, talvez não seja aquele tema que esperávamos no começo, mas quanto mais se aprofunda nesse universo muscal dele, mais se entende a linguagem sonora proporcionada; e se é para viajarmos nesse universo musical, que seja repleta de Fantasia, uma das melhores faixas deste álbum, talvez, a mais repleta de solos encantadores, apenas isto; já os tons mais tristes deste disco estão em Melodia Nº 2, com um peso bem ao nível de um fado que arrepia os ouvidos dos mais fieis ouvintes e fãs do gênero; e quando é para animar um pouco, temos Dança com um ritmo mais festivo e alegre pelos tons, como se estivesse sendo executada em alguma festa portuguesa onde o vinho e a boa comida nunca faltam para complementar - aliás - uma boa opção como música-ambiente desse tipo; e aqui também é revivido um pouco dos temas feitos para o cinema, e é o caso de Canção Verdes Anos, que fora feita para o filme de Paulo Rocha em 1962 e ajudou a ter seu talento reconhecido, aqui mantendo sua boa essência que agrada os amantes da guitarra; na sequência, temos Divertimento, que parece estar perdendo o ritmo e a magia, mas ela traz uma sensação da poesia lusitana através das melodias, e isso é maravilhoso por demais até; na sequência, temos os Romances Nºs 1 e 2, os melhores momentos desse disco em geral enquanto o Romance Nº 1 apresenta uma identidade mais clássica e de forte peso melódico que lembre as velhas cantigas, já no Romance Nº 2 você acaba se encantando ainda mais pela dosagem de sentimentalismo musical, e pelo momento em que chega a imitar uma harpa no meio da música - também com ares voltados um pouco para o erudito, talvez recordava nos acordes um pouco do que aprendeu com seu Artur basicamente; se nos Romances tivemos uma dose extrema de clássico, já em Pantomina, ainda carrega toda a linguagem sonora portuguesa por cada acorde executado, traz essas raízes com um pouco de inovação ao tocar, soa como uma peça musical de Beethoven ou de Handel, óbvio que nem tanto, né? E para terminar, temos a Melodia Nº 1, bem executada e sem fugir da intenção que é mexer nossos ouvidos e corações com seus fados instrumentais, e nos põe de pés no chão ao fim de sua viagem sonora pelo seu universo guitarreiro, uma viagem instrumental que vale muito a pena mesmo ser ouvida.
Com o passar dos anos, Paredes têm levado seu som ao redor do mundo, enchido casas de espetáculos ao redor do mundo, e deixando sua marca às vezes em filmes, ou colaborando com outros nomes da música, mas acabou passando por problemas de saúde a partir de 1992 e iniciara seu afastamento dos palcos aos poucos devido à mielopatia, uma doença do sistema nervoso central que o impedia de tocar, vindo a falecer 11 anos depois, em 23 de julho, considerado o dia em que as guitarras choraram pelo seu maior ícone. O disco foi escolhido pela Blitz como um dos melhores álbuns da música portuguesa dos anos 60, e até hoje é ponto de referência para os músicos, sendo assim um clássico de respeito que serve como uma aula de aperfeiçoamento na guitarra, que é autêntica e portuguesa, ó pá.
Set do disco:
1 - Variações em Ré Menor (Carlos Paredes)
2 - Porto Santo (Carlos Paredes)
3 - Fantasia (Carlos Paredes)
4 - Melodia Nº 2 (Carlos Paredes)
5 - Dança (Carlos Paredes)
6 - Canção Verdes Anos (Carlos Paredes)
7 - Divertimento (Carlos Paredes)
8 - Romance Nº 1 (Carlos Paredes)
9 - Romance Nº 2 (Carlos Paredes)
10 - Pantomina (Carlos Paredes)
11 - Melodia Nº 1 (Carlos Paredes)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um disco indispensável: The Doors - The Doors (Elektra, 1967)

Em 1965 na dourada Califórnia do cinema e do surf - mais principalmente em Hollywood (que chique!), um jovem chamado James Douglas Morrison, filho de funcionários da Marinha, havia largado a casa e decidido a tentar seguir em seu curso como estudante de Cinema na lendária UCLA, e ali nas aulas conhecera Ray Manzarek, que dividia seu tempo entre o curso e a banda com seu irmão Rick: a banda se chamava Rick and the Ravens, aonde Ray tocava órgão elétrico. Outra banda que surgiu ali no meio se chamava The Psychedelic Rangers, na qual tinha os membros Robby Krieger na guitarra e John Densmore na bateria. James, ou melhor, Jim Morrison, não tinha vontade de cantar, tinha mais veia pra poesia, e influenciado pela cultura beatnik, ele começou a escrever letras que se tornariam base de seus maiores sucessos nos anos seguintes. Ainda com o baixista Patty Sullivan, o conjunto gravara uma demo de seis faixas em setembro, e já com Densemore na banda, assim nascia os The Doors, nome que saiu de um famoso livro de Aldous Huxley (1894-1963) intitulado As Portas da Percepção, e basicamente iniciara-se uma breve jornada do grupo até o estrelato definitivo. Fugindo do conceito de uma música mais do mesmo, a banda pulou de vez numa sonoridade mais experimental, e o público não entendia muito no começo. Pois bem, como já era uma banda californiana de renome na cena, eles já agitavam casas com suas apresentações esporádicas, você tinha ali Morrison mais louco que o Batman, em palco se sentia um deus no seu estado de vanglória e tinha Densemore fazendo ritmos na bateria, Manzarek entre o piano Rhodes e o órgão, e Krieger mandando pra valer nas seis cordas da guitarra. Ficaram conhecidos também por apresentações esporádicas em lugares como o Whiskey A GoGo, aonde Jim acabou fazendo uma interpretação (ou seria adaptação?) no meio da música The End, com seus quase 12 minutos, e ele acabou colocando o poema Édipo Rei, com uma dose extrema de vulgaridade (como já diz o Tadeu Schmidt, que isso rapaz?!), mas foi ali onde ele mais Krieger, Densemore e Manzarek viram rapidamente as coisas mudarem de rumo: haviam produtores da Elektra Records chamado Jac Holzman, que fora indicado por Arthur Lee (1945-2006), do conjunto musical Love - contratados da mesma, a conferir juntamente de um prod Paul A. Rothchild (1935-1995) a ver uma das mais incríveis bandas que estavam ouvindo e assistindo. Era o tiro certeiro para o grupo, assinarem um contrato e gravarem um disco: no final de agosto e início de setembro daquele 1966, a banda estava no estúdio Sunset Sound Recorders gravando seu álbum, e como eles não tinham um baixista fixo, algumas faixas era Robby que tocava, outras eram feito pelo teclado de Manzarek, aqui quem toca os baixos de algumas faixas é Larry Knetchel, músico de estúdio que não está creditado na ficha técnica do álbum, mas em algumas reedições futuras foi acrescentado. Apesar de ter sido gravada em uma máquina de quatro canais, o som soa excelente, e apenas três dos quatro canais foram usados na gravação: um para baixo e bateria, o outro para órgão e guitarra e o último para a voz de Jim.
Lançado em 4 de janeiro de 1967, o álbum que levou apenas o nome da banda The Doors aclamou mundialmente o grupo e ajudou-os a se projetarem como uma grande banda de rock naqueles anos. O grupo conseguiu conceber através deste disco uma estratégia que resumia em promover videoclipes, formato até então pouco usado de forma independente, uma vez que muitos destes eram feitos especialmente para programas de televisão. Para começar a falar do álbum The Doors, precisamos falar do tema que abre este, Break on Through (To the Other Side), com uma introdução bem brasileira, pois segundo Densmore, carregava uma influência de Antonio Carlos Jobim (aqui é BR, meu! HUEHUEHUE HUEBR PORRA), mas na letra sofreu um veto na frase "she's so high" e o teclado de Manzarek dá um show nas melodias, e traz esse lance de "abrir as portas da percepção" que a banda estava querendo fazer; a próxima faixa é Soul Kitchen, ela oferece uma pegada bem R&B e que acaba caindo feito uma luva nos nossos ouvidos; se acha que é pouco, então é porque para alguns o gingado deste grupo está no começo, pois na faixa seguinte,The Crystal Ship, com pegada de balada pop dos anos 1960, ela tem uma perfeita combinação entre melodia e poesia, tranquila e suave demais, e agradável por sinal; e como dissemos na primeira faixa, a faixa Twentieth Century Fox também traz ares de bossa nova na levada, aqui Jim canta para uma mulher fina, estilosa e sensível, além de fazer uma alusão à Fox, empresa famosa de cinema e televisão, a guitarra de Krieger consegue soar precisa aqui nesta música; a primeira cover neste disco é um clássico de verdade, e nós estamos falando de Alabama Song, composta por Kurt Weil e Bertold Brecht, que têm cara de canção de cabaré, com uma pitada de ácido sonoro, e aqui o grupo não fez feio nesta interpretação; para fechar o lado A deste disco, o maior sucesso da banda está presente neste disco e estamos falando de Light My Fire, composta originalmente na guitarra por Krieger e depois Manzarek acrescentou-a um órgão alucinante que, ao ouvirmos no rádio a gente reconhece de cara e nem precisamos destacar e enaltecer esse hino, uma vez que em setembro de 1967 o grande Ed Sullivan ficou enfurecido ao ver a banda tocando, e Jim fugiu da proposta exigida para não cantar o verso "girl, we couldn't get much higher" pelo fato de ser inapropriado pela audiência (e ele cantou mesmo assim), e nunca mais pisaram em seu programa, mas seguiram fazendo fama pelo mundo e seguem até hoje (mesmo que separados); e o lado B do disco abre com um outro cover, desta vez de um figurão do blues, Willie Dixon: é Back Door Man, que na linguagem do sul dos EUA significa "um homem que tem um caso com a mulher enquanto o marido trabalha", ou seja, o típico Ricardão aqui para nós, e aqui a interpretação mantêm o astral presente no disco inteiro; a faixa seguinte é simples, trata de sintonias, cumplicidades e semelhanças, um pouco agressiva a sonoridade de I Looked at You, a pegada da bateria no começo lembra os compassos improvisados do jazz, escola de Densmore como baterista, e é um tema que vale a pena prestar atenção nessa pegada meio jazzística, tanto da bateria quanto do órgão inclusive; ainda podemos contar com pérolas impressionantes aonde fala sobre a noite em um tom obssessivo em End of the Night, lembra um pouco as cantigas de ninar pela melodia, carrega essa suavidade ao longo da faixa, bem interessante falar sobre o arranjo desta; adiante, nós também temos aqui uma outra sonzeira, que é Take as It Comes, um pouco mais acelerada pelo ritmo no refrão, e fala sobre Jim e sua experiência com sentimentos, bons ou ruins, e foi escrita após uma palestra com o Maharish Mahesh Yogi, futuramente o guru dos Beatles - olha que inspiração, gente! E fechando com chave de ouro, um tema que dá o que falar ao discutir sobre The Doors, estamos falando de The End, que é uma ópera, uma ode, um épico, e aqui trazemos um destaque sobre esta faixa: quando Morrison a interpretou no Whisky A GoGo, a gente tinha falado que ele fez uma interpretação de Édipo Rei com uma pegada vulgar: aí entra o verso que trazia uma dose de vulgaridade, ele falava "Father? Yes, son! I want to kill! Mother? I want to fuck you!" (Pai? Sim, filho! Eu quero te matar! Mãe? Eu quero te fuder! - tradução livre), e assim encerrando uma belíssima obra-prima da música que iniciou o ciclo da revolução sonora promovida naquele ano de 1967.
O disco até hoje segue superando recordes: só nos EUA vendeu mais de 10 milhões de discos, é o álbum que não pode faltar em diversas listas influentes da música, estando no topo dos melhores álbuns da década de 1960, temos ainda ele lá nos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer organizada por Robert Dimery e também naquela listinha da Rolling Stone que você já deve estar cansado de eu ver citada aqui, a dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos - sim, esse disco figura lá na 42ª posição, caríssimos leitores e leitoras deste blog. Meses depois, a banda já estava promovendo o disco em turnês e programas televisivos (como no caso de Ed Sullivan inclusive), voltaram ao estúdio no verão daquele mesmo 1967 para presentearem seus fãs com Strange Days em dezembro. Mas isso aí já é uma outra história.
Set do disco:
1 - Break on Through (To the Other Side) (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
2 - Soul Kitchen (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
3 - The Crystal Ship (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
4 - Twentieth Century Fox (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
5 - Alabama Song (Kurt Weil/Bertold Brecht
6 - Light My Fire (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
7 - Back Door Man (Willie Dixon/Chester Burnett)
8 - I Looked at You (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
9 - End of the Night (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
10 - Take as It Comes (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)
11 - The End (Jim Morrison/Ray Manzarek/Robby Krieger/John Densmore)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Um disco indispensável: The Piper at Gates of Dawn - Pink Floyd (EMI/Columbia, 1967)

Em 1965 surgia na cena uma das bandas que agitaria de vez a cena roqueira nas terras de Londres e com uma proposta totalmente diferente, uma banda de rock que nasceu com variados nomes, dentre eles Sigma 6, Tea Set, The Megadeaths, The Architetural Abdabs, The Screaming Abdabs ou simplesmente The Abdabs e essa banda contava com o guitarrista e então estudante em um curso de Arquitetura na Cambridge George Roger Waters (nascido em Surrey no dia 6 de setembro de 1943) ou simplesmente Roger Waters, o baixista Clive Metcalf, o baterista Nicholas Berkeley Mason (nascido em Birmingham no dia 27 de janeiro de 1944) ou simplesmente Nick Mason, e o tecladista Richard William Wright (Londres, 28 de setembro de 1943 - 15 de setembro de 2008) mais os vocalistas Juliett Gale e Keith Noble, Gale se casou com Wright e abandonou o grupo, em seguida Noble e Metcalf deixam a banda na sequência. Para essas substituições instantâneas, procuram Bob Klose que ocupa o lugar de Waters na guitarra e este parte para o baixo, o outro guitarrista seria Roger Keith Barrett (Cambridge, 6 de janeiro de 1946 - 7 de julho de 2006) futuramente conhecido artisticamente como Syd Barrett, e novamente como Tea Set, a banda seguiria em frente - mas outras baixas aconteceriam no grupo. Primeiro, o novo vocalista Dennis foi chamado para o serviço militar britânico pela Royal Air Force e na seguida Klose abandonaria também o barco logo em seguida após ter gravado uma única demo junto deles, e para piorar, já existia uma outra banda também de nome Tea Set. Eis que a brilhante mente de Syd acaba tendo uma brilhante ideia que poucos teriam até então e traz para Mason, Wright e Waters o nome alternativo The Pink Floyd Sound, uma homenagem a dois nomes do blues, o primeiro seria Pink Anderson (1900-1974) e o outro seria Floyd Council (1911-1976), por um breve tempo usaram o Sound no nome até que eles seguissem usando o nome The Pink Floyd - como era creditado nos primeiros singles da banda. Logo após essa formação definitiva, o The Pink Floyd era conhecido na cena britânica e Barrett começava a escrever canções influenciado pela música psicodélica estadunidense e também pela inglesa, além da surf music, o som da banda tinha referências que iam do jazz ao experimental e isso acabava nos fazendo ir para outras galáxias, para outras atmosferas e o público que assistia seus recitais em lugares como o UFO Club e também no lendário Marquee, onde já se consagrou os Rolling Stones entre outras bandas. Isso acabou chamando a atenção de gente que se interessara pelo som e conseguiram de cara um contrato com a gravadora EMI Records ainda em fevereiro de 1967, gravando um compacto com a faixa Arnold Layne - que falava sobre um travesti cleptomaníaco, e assim, uma repercussão além da cena underground britânica que ajudaria em levar o grupo ao estrelato rapidamente.
O conjunto com Barrett (abaixo) em 1967
Mas, nem tudo são flores para uma banda que começava naqueles tempos. As gravações que foram de fevereiro a maio de 1967 tiveram passado por situações que envolviam o single de Arnold Layne, o total controle de Barret como frontman e seus problemas com drogas, que resultaram em uma montanha-russa de altos e baixos durante essa fase. Mas, apesar do clima tenso e dos shows que girava em torno da banda, o grupo conseguiu unir forças e com Norman Smith - engenheiro de som dos Beatles - como produtor, conseguiram fazer um disco que transbordasse essa magia psicodélica "alucicrazy" com Barrett trazendo visões doidas que caberiam no ambiente poético das canções que recheiam The Piper at Gates of Dawn - título originalmente extraído de um capítulo do livro O Vento Nos Salgueiros (The Wind in the Willows - título original), a estreia em disco do grupo, com a produção de Norman Smith, que trabalhava como engenheiro de som dos Beatles, que ajudou muito na concepção de som do álbum, lançado originalmente em 5 de agosto de 1967 fazendo a banda entrar definitivamente no mainstream. Para começarmos a falar deste clássico, vamos com a faixa de abertura, Astronomy Dominé, um exemplo de como a mente de Syd Barrett consegue transpirar pura lisergia musical, com uma energia delirante vinda da guitarra, um ritmo hipnotizante e que começa com o manager Peter Jenner fingindo-se de torre de comando de um controle espacial e começa a ler um livro de astronomia aberto em qualquer página - ou seja - como se fosse uma narrativa à la Jules Verne com tons futuristas que já nos mostram para que esses caras vieram de verdade; em seguida, temos Lucifer Sam que aparenta uma atmosfera sonora bem viajante, com um riff de guitarra incrível e o órgão de Wright emitindo acordes dissonantes com uma breve influência do rock praieiro estadunidense pelo que se pode notar a levada e nos levando a um imaginário através dos versos cantado por Syd; mais adiante, o grupo apresenta Matilda Mother, recheada de batidas delirantes à la Tomorrow Never Knows, e o baixo se mostra muito forte na canção, carregando uma energia delirante; na sequência, já em Flaming, o começo é bem escuro, mas acaba ganhando cores - em termos de letra e música, e se você não entndeu muito, lamento, mas você não sabe o que está perdendo dessa sonzeira; e por adiante, vamos, com Pow. R. Toc. H., uma espécie de viagem lisérgica para as selvas, na qual cada integrante imita um animal, com um teclado bem pegado ao jazz e uma batida marcante - a pulsação da batida nos deixa em sintonia com a natureza de forma alucinante e muito diferente, no bom sentido; para complementar, temos também um tema de Waters que fecha a primeira parte do disco, com Take Thy Stethoscope And Walk, com uma guitarra que parece ter tomado diversos ácidos e feito um som que impressiona a gente, com vozes dizendo "Doctor! Doctor!" como se fosse um grito de socorro; o lado B do álbum já começa com uma senhora viagem sonora deste disco, a mais longa faixa do disco, que é Interstellar Overdrive, composta pela banda, e que consegue ir próximo a uma linhagem do free jazz carregado de impressionantes versos e uma conexão forte de cada integrante no decorrer da canção com quase 10 minutos viajantes que se destacam no disco inteiro; enquanto na próxima faixa, que é The Gnome, a poesia lisérgica de Barrett ganha um forte destaque aqui e já não é coisinha fraca, para quem buscou diversas referências musicais dentro de uma banda à época, a base vibra e a voz de Syd deixa a gente impressionado; e existem grandes referências literárias nas canções da banda, uma delas é Chapter 24, inspirada basicamente no capítulo 24 do livro I-Ching, e aqui temos as vozes de Barrett e Waters parecem soar como se tivessem elevado o ponto mais alto do Nirvana, assim como o teclado de Wright, que soa como uma poesia para os ouvidos plenamente; mas, como ainda não estávamos no fim da jornada psicodélica que este disco nos oferece, ainda temos Scarecrow, que complementa o mesmo conceito, seja poético-sonoro ou apenas um dos dois, de The Gnome, e aqui trazem uma crítica sobre a visão autoritária dos pais em forma de um espantalho - algo que impressiona nossos ouvidos de cara; e, para fechar o disco, temos Bike, recheada de surrealismo musical que nos faz sentir o fim da viagem sonora que ainda dura para muitos fãs da banda e fãs de música, e que fecha com sons inventados em estúdio.
Para muitos, a jornada viajante do grupo não acabou, seus discos soam mais atuais do que nunca, apesar de Syd ter pulado fora após uma temporada de shows na qual já havia o guitarrista David Gilmour, que permaneceu na banda até o encerramento das atividades, em 1996. O disco obteve um legado enorme do próprio "Crazy Diamond", que chegou a reencontrar seus velhos integrantes oito anos depois de sua saída durante as sessões de Wish You Were Here (1975) e na qual ninguém o reconheceu no primeiro instante, embora já tinha gravado faixas para A Saucerful of Secrets (1968) e depois feito discos solos que mostravam seu estado extremo de alucinação. Barrett faleceu em junho de 2006, bem a tempo de ver seu disco com a antiga dupla aparecer em listas dedicadas aos anos 60 da Mojo, New Musical Express e também Rolling Stone - na qual aparece na 347ª posição dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, a lista mais importante de todas, depois da famosa listinha dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, aonde também marca presença. Enfim, a viagem delirante de Barrett que fala por si só.
Set do disco:
1 - Astronomy Dominé (Syd Barrett)
2 - Lucifer Sam (Syd Barrett)
3 - Matilda Mother (Syd Barrett)
4 - Flaming (Syd Barrett)
5 - Pow R. Toc H. (Syd Barrett/Nick Mason/Roger Waters/Richard Wright)
6 - Take Up Thy Stethoscope and Walk (Roger Waters)
7 - Interstellar Overdrive (Syd Barrett/Nick Mason/Roger Waters/Richard Wright)
8 - The Gnome (Syd Barrett)
9 - Chapter 24 (Syd Barrett)
10 - The Scarecrow (Syd Barrett)
11 - Bike (Syd Barrett)


Um disco indispensável: Splish Splash - Roberto Carlos (CBS Discos, 1963)

O mundo parecia que ainda não havia escutado com tanta vontade a voz do jovem capixaba Roberto Carlos Braga, nascido no dia 19 de abril de 1941 em Cachoeiro do Itapemirim, parece que nasceu com o dom divino da voz, uma voz que encantaria e segue encantando gerações até hoje. Aos seis anos, perdeu parte da perna direita em um acidente de trem - isso se deve ao fato de vermos sempre ele de calças. Mas isso não impediria o sonho do pequeno Zunga (apelido dele na infância) de poder cantar e encantar as multidões ao redor do mundo com sua preciosa voz cristalina e aos 9 anos ganhou seu primeiro concurso e isso o levou a cantar em programas de rádio ainda na sua querida Cachoeiro, e na juventude acompanharia mais de perto a era dos cantores de rádio que estava em voga e sem perder o primor. Em 1956, já no Rio de Janeiro, se junta a dois garotos mais o integrante principal: um gorducho simpático chamado Tião Marmita para participar de um conjunto que fazia um som considerado tendência na época: o rock and roll. E em 1957 estreiam como o conjunto musical The Sputiniks, porém todas as atenções estavam voltados na voz preciosa de Roberto enquanto Tião era um pouco chutado pra fora. Apesar disso, os dois seguiram amigos e anos depois Tião Marmita, recém-deportado de uma prisão nos EUA viraria Tim Maia e se tornava o pioneiro do soul no Brasil. Enquanto isso, o Roberto conseguia a grande chance - de gravar um compacto pelo selo Polydor, e com uma ajudinha de Carlos Imperial: seu primeiro grande empresário e investidor na sua carreira, queria que ele fosse visto como o próximo nome da bossa nova, porém nada adiantou com as faixas Fora do Tom e João e Maria, feitas com Imperial e que mostravam um timbre no estilo João Gilberto, nome em voga naqueles tempos. Porém, a investida foi pouca e Roberto foi até aos prédios da Columbia na Cidade Maravilhosa após ouvir o temido "não" de outras gravadoras, inclusive a RCA Victor. E, mais uma vez, viu seus compactos não deslancharem de vez, seguia vivendo de uns shows pra tentar uma divulgação e apesar disto tudo, os executivos ainda viam potencial em lançá-lo como um cantor de diversos gêneros, e em 1961 saía seu primeiro disco intitulado Louco Por Você, que tinha desde boleros até rocks - quase todos de Imperial, e que hoje é um disco renegado pelo próprio cantor pela forma como foi feita. Em 1962 gravara mais dois compactos e mesmo assim não havia grandes resultados que o colocassem em um patamar de cantores como Demétrius, Ronnie Cord, Wilson Miranda, Celly & Tony Campello, Sérgio Murillo - este que até então era o ícone máximo da juventude desde o final da década de 1950 até esse período, quando partira para uma carreira na América Latina inteira. E não é que 1963 foi o ano para Roberto, era só ele lançar um disco com novo parceiro que tudo mudaria de vez: um velho conhecido de Clube do Rock que sabia fazer versões de canções em inglês ofereceu uma de suas versões para ele gravar e em troca escreveriam um hit juntos. Este versionista era Erasmo Esteves, que adotou o sobrenome Carlos e se tornou o maior parceiro do Rei e o mais presente até hoje. Duas composições da dupla Erasmo & Roberto e uma adaptação do futuro Tremendão iriam compor a lista de faixas do segundo álbum que estampava o nome do cantor, mas também conhecido por Splish Splash - que aparece na capa junto de mais onze músicas e leva também esse nome por ser destacável em letras maiores, outro motivo essencial.
O disco era a chance do executivo e faz-tudo da gravadora, Evandro Ribeiro, de lançar um grande nome não só na boca da galera definitivamente após mais de dez compactos e um disco morno, eis aí que tudo começa a mudar de rumo literalmente, mas sim de lançar o maior nome da música brasileira e latina (imagina só). Com arranjos de Astor Silva, e a presença dos músicos do grupo Renato & Seus Blue Caps do qual Erasmo fez parte neste período, e que se lançaria tempos depois como artista individual. O álbum já abre com um estouro nos nossos ouvidos: sim, um estouro! Mas ruídos de carros que invadem os primeiros segundos do disco dando entrada para o sucesso Parei na Contramão, a história de um jovem apaixonado na estrada, que acaba levando multa de um guarda de trânsito após acabar tentar chamar a atenção pelo carro, numa levada bem twist que é feita pelo Blue Caps que o acompanham nesta maravilhosa canção; um coro puxa no início a marcha nupicial - assim inicia a faixa Quero Me Casar Contigo, uma doce e singela declaração amorosa do nosso Rei para sua futura noiva e perguntando a Deus o que será dele: mesmo soando bobinha demais, dá até pro gasto; a faixa traz um som de beijo e de cara temos o hit que Erasmo versionou de Bobby Darin, Splish Splash: mostrando que o Rei era um excelente cantor de rock e que tinha perfil para interpretar como um Elvis à brasileira, e Erasmo um letrista e tradutor que ganharia seu respeito pelo público; em seguida, outra música dá o clima romântico deste disco, com orquestra de cordas é Só Por Amor, uma belíssima e plena canção que transborda melodias típicas para as canções daquele tempo e não faz feio aqui no disco de jeito nenhum; e um dos temas que merece destaque aqui é Na Lua Não Há, escrita por Helena dos Santos, com um pouco mais de aceleração no ritmo, que lembra um pouco twist e rockabilly, a base acaba ganhando uma atenção enorme, a guitarra e o sax fazem uma perfeita união sem igual por aqui; o lado A deste disco fecha com uma bossa da dupla: É Preciso Ser Assim, que mantém a leveza e a batida - até reouvirmos e ver que parece uma bossa jovem, mais suingada, que dá totalmente pro gasto aqui; o disco já nos proporciona na segunda metade um melodramatismo poético-musical na faixa Onde Anda o Meu Grande Amor, com vocais líricos de fundo que complementam a base que lembra a de Só Por Amor ao ouvir de cara; já na faixa seguinte, uma pegada meio country elétrico acaba nos oferecendo Nunca Mais Te Deixarei serve como uma peça musical deste quebra-cabeça do disco sem muita firula - se é que me entende; na sequência, temos adiante um tema mais típico da época - em especial pelo título e pela composição, Professor de Amor é uma versão de I Gotta Know e RC dá a deixa "presta atenção, brotos" como se ele estivesse a lecionar sobre o amor (e isso ele é muito especialista no assunto); ainda temos outro tema que é quase despercebido, intitulada Baby, Meu Bem - não soa fraca, apesar de ter sido lado B de um compacto da faixa-título do disco, o arranjo é ótimo e não deixa a gente se estranhar muito; aqui no disco também temos lamento em tom gospel: é Oração de Um Triste, onde Roberto pede perdão a Deus por duvidar de sua existência, e não entende o porquê dele ser um homem tão triste - narativa religiosa que acaba mexendo com a gente de cara; e o final fica com Relembrando Malena, uma espécie de continuação da faixa lançada em compacto no ano de 1962, com tons românticos que mostram o Rei ainda no começo da expansão de seu sucesso, anos antes de estourar com o programa Jovem Guarda e enfeitar nossas noites de final de ano na televisão.
Set do disco:
01 - Parei Na Contramão (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
02 - Quero Me Casar Contigo (Carlos Alberto - Adilson Silva - Cláudio Moreno)
03 - Splish Splash (Bobby Darin, versão em português de Erasmo Carlos)
04 - Só Por Amor (Luiz Ayrão)
05 - Na Lua Não Há (Helena dos Santos)
06 - É Preciso Ser Assim (Roberto Carlos/Erasmo Carlos)
07 - Onde Anda o Meu Amor (Hélio Justo/Erly Muniz)
08 - Nunca Mais Te Deixarei (Paulo Roberto/Jovenil Santos)
09 - Professor De Amor (I Gotta Know) (Matt Wlliams/Paul Evans
, versão em português de Marcos Moran)
10 - Baby, Meu Bem (Hélio Justo - Tito Santos)
11 - Oração De Um Triste (José Messias)
12 - Relembrando Malena (Rossini Pinto)