terça-feira, 9 de maio de 2017

Um disco indispensável: Time Out - The Dave Brubeck Quartet (Columbia Records, 1959)

Água. Terra. Fogo. Ar. Este são quatro elementos que compõem a natureza da nossa Terra, quatro pilares que conseguem unir-se em um momento e captar uma energia que pode mudar o rumo às vezes. E por que não dizermos que na música? No caso do jazz, tudo é possível, e com o quarteto do pianista Dave Brubeck, que surgiu na década de 1940 como um trio, enquanto um jovem como ele servia o Exército e se encontrara com Paul Desmond, saxofonista e futuro parceiro musical ao longo da carreira, e na época lançara dois discos como trio ao lado de Cal Tjader pelo selo Fantasy Records, e assim Brubeck se tornaria um dos músicos mais importantes do jazz, junto de Monk, Miles, Coltrane dentre outros. No decorrer dos anos 1950, o grupo dele já foi octeto, tendo Cal Tjader e Desmond, William O. Smith, Dick Collins, Bull Ruther, Bob Bates dentre outros. Da Fantasy para a Columbia, o músico já trazia uma experiência enorme e seu nome era consagrado de vez no Olimpo da música jazz e discos como Jazz Goes to College (1954), Jazz: Red, Hot and Cool (1955) e Brubeck Plays Brubeck (1956) eram vistos como um novo jeito de fazer música e com seu quarteto transformando uma cozinha em uma excelente peça musical cheia de melodias e improvisos. Com várias mudanças de formação, embora estivessem ainda Desmond e o baterista Joe Morello, o músico seguia a transformar qualquer tipo de canção em obra de arte, e no caso de álbuns como Dave Digs Disney (1957) - o pianista e seu conjunto constroem belos arranjos em cima de temas feitos para filmes da Disney, e em seguida saíram lançando uma dobradinha de Jazz Impressions, o primeiro foi USA e na sequência foi o Eurasia, e a partir desses dois discos uma nova forma de impressionarem os ouvidos até dos mais puristas fãs de jazz. Sem deixarem o lado virtuoso e a essência, Dave e Desmond mais Morello e o baixista Eugene Wright acabaram trabalhando brevemente em um excelente disco, mas antes uma paradinha na Turquia aonde se impressionaram com os músicos de rua locais executando uma música tradicional do folclore turco em um tempo de 9/8 com subdivisões de 2+2+2+3, um ritmo muito raro de se usar na música do Oeste estadunidense. Para isso, o grupo teve de aceitar a condição de gravar temas do Sul norte-americano no começo e lançarem o disco, que saiu como Gone With the Wind (que leva o mesmo nome do filme E O Vento Levou, de 1937) para que, em seguida, o presidente Goddard Liberson, da Columbia Records, tivesse de liberar o aval para que eles pudessem entrar novamente nos estúdios da casa, em New York para poderem gravar aquele que seria o maior álbum de jazz já feito por eles, e um dos clássicos: logo estamos falando de Time Out, produzido por Teo Macero e considerado um dos trabalhos mais importantes do gênero lançado em 14 de dezembro de 1959, e sabe aqueles quatro elementos que falamos no começo? Então, cada um representa esses elementos da natureza:  Brubeck é Água - transborda pingos atrvés das melodias, Desmond é Fogo - seus solos de saxofone soam como labaredas, Wright é o Ar - que pode passar despercebido, mas traz uma pegada boa no baixo, e Morello é Terra - sua levada rítmica soam como se estivesse um terremoto, e quando esses quatro elementos se unem: se pode esperar de absolutamente tudo na música.
E para falarmos de Time Out, que apesar das críticas negativas à época de seu lançamento, tornara-se um exemplo de vendagens no jazz e tendo uma proposta que já está no título: sem muita pausa, as ideias sobre os compassos são muito exploradas a fundo no deste trabalho. O álbum inicia-se com Blue Rondo à la Turk, que abre o disco em um ritmo de compasso 9/8 - o ritmo da marcha turca ou o zeybek, o equivalente ao ritmo zeibekiko grego, e ainda se alterna com o compasso 4/4 do jazz tradicional e o título remete à marcha Rondo Alla Turca, derivada originalmente da Piano Sonata Nº 11, de Wolfgang Amadeus Mozart - agora entendemos a referência do título; na sequência, o quarteto nos apresenta Strange Meadow Lark, que entra com um solo de piano onde não se apresenta um compasso definido bem 4/4 e depois que o resto do quarteto surge para complementar a canção; a faixa seguinte que fecha o lado A seria um dos clássicos do disco e também o hit do conjunto: Take Five, que não é de Brubeck e sim de Desmond, aqui é o melhor conjunto de melodias instrumentais que foram feitas para o disco: a bateria de Joe Morello e seu solo maravilhoso serviu como um pontapé definitivo para o tema e se tornara um sucesso mundial de cara; o lado B do disco já nos oferece de cara Three to Get Ready, que inicia-se com um tempo de valsa, numa levada de 4/4 que se alterna em certos momentos da música e que apesar dos momentos de improvisação, a mesma ainda segue; já na próxima faixa, intitulada Kathy's Waltz, que traz uma excelente levada do baixo de Wright e a polirritmia são essenciais para os ouvidos que manjam do bom e velho jazz movido a improvisações e muita virtuosidade; com a próxima faixa, Everybody's Jumpin', sentimos ainda mais esse gosto do quarteto fazendo um jazz de qualidade, com uma rítmica indefinida numa marcação que soa como um 6/4, totalmente isso; e o disco fecha com Pick Up Sticks, que mostrava a banda indo além e mantendo essa coisa de ir além do 4/4, e num tom de seis templos simples, esencial para os músicos de jazz. Tendo uma grande influência na música, o disco conseguiu não só sair da cadência melódica tradicional, conseguiu incorporar elementos da música oriental e fez com que vários músicos buscassem uma forma de unir elementos sonoros e até na capa, feita por Neil Fujita (1921-2010) pioneiro em levar o conceito de arte gráfica do disco mais a sério e com uma boa forma de chamar a atenção de quem compra, por isso que álbuns de jazz começaram a ganhar atenção pelo seu conteúdo, e esta levou a melhor em uma escolha feita pela revista BIZZ em 2005 na lista das 100 Maiores Capas de Álbuns de Todos os Tempos, levando o 22º lugar, e a famosinha lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, organizada por Robert Dimery, traz esse disco entre outros tantos. É o mais onipresente nas listas dos melhores álbuns de jazz e não há como negar a importância de Time Out dentro do circuito musical contemporâneo e um marco dentro do gênero, onde enfim, se pôde notar que o jazz era muito mais do que conjuntos de melodias tocadas em compassos de 4/4 e com uma linguagem verdadeiramente universal que segue influenciando músicos ao redor do mundo. 
Set do disco: 
1 - Blue Rondo à la Turk (Dave Brubeck)
2 - Strange Meadow Lark (Dave Brubeck)
3 - Take Five (Paul Desmond)
4 - Three to Get Ready (Dave Brubeck)
5 - Kathy's Waltz (Dave Brubeck)
6 - Everybody's Jumpin' (Dave Brubeck)
7 - Pick Up Sticks (Dave Brubeck)

domingo, 7 de maio de 2017

Um disco indispensável: Chet Baker Sings - Chet Baker (Pacific Jazz Records, 1954)

No início dos anos 50 e na primeira metade do século XX, era comum que astros da música fossem músicos talentosos e regentes de orquestras como Benny Goodman, Glenn Miller e Count Basie movimentavam os salões de dança e as noites luxuosas dos EUA, as vozes femininas de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Julie London, Peggy Lee, Anita O' Day, Dinah Washington tornavam-se os cantos da sereia naqueles tempos, encantando milhões de pessoas. Os homens não estavam com time fraco, tendo o também trompetista Louis "Satchmo" Armstrong que se tornara um nome mundial com seus vários sucessos, Nat King Cole - que tocava piano, mas tinha um vozeirão apaixonante, Bing Crosby, Mel Tormé, Bobby Darin e aquele que se tornaria uma das maiores vozes do século XX: o grande Frank Sinatra, que havia decidido a parar com a música e se dedicado à carreira de ator nos cinemas, voltando em 1954 com o disco Songs for Young Lovers, que o colocaria de volta ao topo definitivamente. O jazz era algo tão pop para aqueles anos, que até músicos eram bem valorizados por seus trabalhos e que se tornaram sinônimos de virtuosidades na arte de tocar seus instrumentos: Thelonious Monk, Billy Cobham, Julian "Cannonball" Adderley, Stan Getz, Dave Brubeck, Paul Desmond, Bill Evans, Paul Desmond e os trompetistas Miles Davis e Chet Baker, este, que além de tocar trompete, tinha uma das vozes mais perfeitas do mundo. Diferente de outros cantores que tinham uma forte potência para soltar o gogó, Chet foi o exemplo de perfeccionismo e de suavidade para dar voz a belas canções, inspirando muito nomes como, por exemplo, o grande João Gilberto, que declarou no livro Chega de Saudade para o biógrafo Ruy Castro que o próprio Baker foi influência total para a voz e o estilo de cantar baixinho, coisa que também seria referência onipresente para outros artistas ao redor do mundo que também viram nele esse estilo. Nascido na cidade de Yale, no Oklahoma em 23 de dezembro de 1923, Chesney Henry Baker Jr. foi criado em uma quinta até os seus dez anos e no final dos anos 1930 partiu para Los Angeles onde foi estudar teoria musical, a paixão pelo jazz veio de seu pai, exímio guitarrista e de quem herdou muito talento, e com isso, um belo futuro na música que começou como músico acompanhante da banda de Vido Musso, depois viria a tocar com Stan Getz. O músico só conheceria realmente o sucesso no começo de 1952, quando o grande Charlie Parker (1920-1955) o convidara para fazer parte de sua banda em uma série de shows na Costa Oeste americana. No ano de 1952 entra para a banda de Gerry Mulligan aonde gravaram juntos a primeira versão do tema My Funny Valentine e devido ao problema de drogas, o grupo teve curta duração e Chet acabou partindo para carreira solo, com um estilo sofisticado, considerado cool, fazendo improvisos. Mas também trazia uma voz que soava como uma espécie de canto da sereia jazzístico e com a imagem de rebelde sem causa que se tornou marca registrada de sua carreira.
Em 15 de fevereiro de 1954, o músico entrava em estúdio na Capitol Records, bem acompanhado, para gravar um de seus álbuns mais influentes, o seu verdadeiro legado na história da música: com a produção de Richard Bock, o álbum Chet Baker Sings, lançado entre abril e maio tornou-se uma verdadeira aula de como cantar com o máximo de suavidade. Inspirando desde nomes do jazz vocal, passando pela bossa nova, Chet conseguiu unir sua voz e seu trompete em um conjunto de 8 canções que tornariam valiosas que nem ouro na sua interpretação. O disco abre com But Not For Me, considerado um dos clássicos dos standards, que já nos faz se sentir em uma cena de filme noir dos anos 1930/40/50 num ambiente de Paris fumando um cigarro em frente à Torre Eiffel apreciando o fim de mais um dia, e sua voz soa plena e apaixonante como nunca, como Chet só Chet mesmo; já na sequência, temos Time After Time com seu piano abrilhantando o fundo instrumental e que ganha um forte destaque e a atenção de quem ouve este disco; em seguida, o trompetista segue a desfilar belas canções em sua voz e I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes) de Hoagy Carmichael mantêm a essência pura da canção, essa doçura de sempre; já uma das grandes faixas de destaque desse disco aparece - o clássico de Rodgers & Hart, My Funny Valentine, que já ganhou várias versões e esta se tornou uma das maiores já feitas, o primor e a simplicidade ganham nossos ouvidos de cara; uma das canções que apresenta beleza poética é There Will Be Another You, a história do homem que segue a dizer que haverá outros lábios a beijar e outros dias mas não haverá nenhuma como aquela pessoa amada - a interpretação dele cumpre o dever de transbordar harmonias calmas que nos fazem estar em paz; para complementar o repertório, temos também The Thrill is Gone, que diferente da versão de Roy Hawkins e Rick Darnell imortalizada pelo saudoso B.B. King - aqui é a versão de Lex Brown e de Ray Henderson, que trouxe um arranjo espetacular; e aqui também há espaço para o hino dos que se apaixonam iludidamente, intitulado I Fall in Love Too Easily, aonde nos versos seguintes "For love to ever last/My heart should be well-schooled/'Cause I been fooled in the past" (Para amar pela eternidade/Meu coração seria bem educado/Porque fui enganado no passado" demonstra realmente o quanto dói apaixonar e se lembrar dos enganos em outros tempos, é a música que mais se destaca entre o restante pela sua levada e conjunto melódico - profundo e sofrível ao mesmo tempo (Jazz também carrega essa coisa de sofrência desde muito tempo atrás), e também uma de suas melhores interpretações ao longo de sua carreira; e fechando o disco, temos Look for the Silver Lining, um tema que o trompetista dá voz sobre um coração cheio de júbilos e alegrias sempre expulsando conflitos e tristezas, no final ele ainda pede que veja as coisas pelo lado positivo com uma sensação de que tudo há de melhorar em breve.
Na segunda reedição do disco, feita em 1956 foram acrescentadas mais seis faixas gravadas nos dias 23 a 30 de julho no Forum Theatre em Los Angeles, dois anos depois do lançamento original, trouxera mais seis faixas que complementariam uma edição mais popular e consagrada por vários fãs, deixando as oito faixas da edição original no lado B do álbum. Começando esta versão no lado A com o tema That Old Feeling, aqui nada muda, segue todo esse lirismo sentimental e o tom melódico de sempre, mas que dá totalmente pro gasto; depois segue o baile com It's Always You, que traz um piano bem recheado de conjuntos melódicos e a voz aveludada do músico, e que fora gravada já por Frank Sinatra e atualmente pela dupla She & Him, é de uma bela natureza poético-musical as melodias desta; e dos mesmos autores da faixa anterior, outra pérola, Like Someone in Love - de Jimmy Van Heusen e Johnny Burke, mostram a história de alguém que sai a se esbarrar em coisas como alguém completamente apaixonado, de forma delirante, sem decepcionar a gente aqui; para a continuação deste disco, ainda temos também My Ideal, que é outra música de grande destaque, flui serena e doce, a voz de Chet põe aqui uma atmosfera que combina com a letra da canção sem dúvidas; e o tema relevante I've Never Been in Love Before transborda um som maravilhoso, e a letra mostra essa história de um alguém que nunca havia se apaixonado tanto antes, a atmosfera poética é coisa mais linda que se pode ouvir; e fechando o lado A dessa edição, temos uma canção que trata a ausência de sua parceira em My Buddy, profundo e melancólico, apresenta aqui a ausência dessa pessoa e sentindo a falta da voz e do toque da mão desta, e com um instrumental maravilhoso, fechando assim com chave de ouro. À época de seu lançamento, uma crítica feita pela revista Billboard a respeito do disco foi feita, e se falou que sua habilidade vocal não chegava nem perto do som que fazia com o trompete, mas quem somos nós para discordar? Este disco conseguiu ser um exemplo de trabalho que segue a atravessar gerações, trazendo esse estilo de suavidade vocal para todos os tipos de cantores, inclusive os de chuveiro que carregam esse estilo Chet Baker de cantar que não é desafinado, mas simples e fácil de aprender.
SET DO DISCO (FAIXAS GRAVADAS EM 1956 + ORIGINAL DO ÁLBUM DE 1954):
1 - That Old Feeling (Lew Brown/Sammy Cahn)
2 - It's Always You (Jimmy Van Heusen/Johnny Burke)
3 - Like Someone in Love (Jimmy Van Heusen/Johnny Burke)
4 - My Ideal (Newell Chase/Leo Robin/Richard A. Whiting)
5 - I've Never Been in Love Before (Frank Loesser)
6 - My Buddy (Walter Donaldson/Gus Kahn)
7 - But Not For Me (George Gershwin/Ira Gershwin)
8 - Time After Time (Jule Styne/Sammy Cahn)
9 - I Get Along Without You Very Well (Except Sometimes) (Hoagy Carmichael)
10 - My Funny Valentine (Richard Rodgers/Lorenz Hart)
11 - There Will Be Another You (Harry Warren/Mack Gordon)
12 - The Thrill is Gone (Lew Brown/Ray Henderson)
13 - I Fall in Love Too Easily (Jule Styne/Sammy Cahn)
14 - Look for the Silver Lining (Jerome Kern/Buddy DeSylva)

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Um disco indispensável: Led Zeppelin - Led Zeppelin (Atlantic, 1969)

A década de 1960 entrava em seu fim. O que havia acontecido com o todo o movimento hippie, toda aquela geração que bradava por paz e amor teria um preço e um final dramático. Aos poucos, a psicodelia seguiria como um simples legado da geração que passou, mas ainda havia um pouco dela dentro do rock progressivo, da música experimental e um pouco do futuro heavy metal. O rock começava a ganhar um outro tom, mais cru, sujo e pesado e algumas bandas se tornariam influentes no novo cenário, uma delas traziam quatro integrantes de longas passagens por outras bandas e outros projetos: o cabeça por trás desta banda vinha de passagens por bandas como Crusaders, Red E Lewis & The Red Caps, Jet Harris & Tony Meehan e esteve durante um breve tempo nos Yardbirds: James Patrick Page estava começando a escrever um longo capítulo como guitarrista e começara a fundar uma das bandas mais importantes da história do rock. O outro era um arranjador, compositor e produtor virtuoso, trabalhando ao lado de Andrew Loog Oldham e se tornando um dos excelentes multiinstrumentistas da época, esse era John Paul Jones, aclamado por seus grandes trabalhos. O próximo músico era um baterista que sabia trazer peso rítmico, John Henry Bohnam passou por várias bandas até chegar na Band of Joy onde se cruzaria com Robert Anthony Plant, dono de uma potência vocal impressionante e de belos cachinhos dourados (que poderiam render um apelido irônico aqui no Brasil) seriam parceiros nesta nova grande banda. Como começamos exatamente esta história? Bem, o guitarrista Jimmy Page havia ficado só nos Yadbirds e precisava manter a banda de pé, desta vez com uma nova formação, e participando de uma gravação do cantor Donovan ao lado de Jones, que soubera deste novo projeto do guitarrista. Para que o projeto do New Yadbirds ganhasse corpo, Jimmy Page fora a Birmingham, aonde uma banda chamada Hobstweedle estava tocando, e o guitarrista descobriu uma voz cristalina com espírito de bluesman, esse era Plant e o guitarrista convidara ele para cantar no seu novo projeto, mas Robert Plant também daria uma indicação de peso: o seu velho parceiro de Band of Joy e baterista talentoso John Bonham. Mas, um impasse aconteceu para que o New Yadbirds não seguisse com o nome: o ex-baixista Chris Dreja ainda detinha os direitos do nome e para que não tivessem problemas e conflitos judiciais, Page se lembrou de uma conversa que teve com dois integrantes do The Who - um deles o baterista Keith Moon - sobre o som da banda, e que fez uma breve comparação dizendo que seria pesado como um zepelim de chumbo, e assim nascia o nome que todos nós conhecemos, Led Zeppelin, baseado nos balões do general alemão Ferdinand Von Zeppelin (1838-1917), e com esse nome a banda partiria em turnê nos países escandinavos. A primeira apresentação foi em 7 de setembro de 1968, em Gladsaxe na Dinamarca e dali então, não pararam mais, até que na metade do mês, a banda entrara em estúdio e começaria a gravar o disco que se tornaria a grande estreia da banda, nos lendários estúdios Olympic em Londres, quase todo ao vivo e tendo um período de 36 horas de trabalho com o engenheiro Glyn Johns ajudando Page na mesa de som e o empresário Peter Grant na produção executiva do trabalho.
O disco homônimo só se tornou possível depois que a banda conseguira um contrato com o selo Atlantic Records, responsável por discos de Aretha Franklin, Ray Charles, Buffalo Springfield, The Coasters dentre outros, trazia em seu elenco os mais novos ídolos da música. As apostas estavam deixando a desejar uma média de repercussão, mas o selo dos irmãos Nesuhi e Ahmet Ertegun, amantes da boa música e do futebol. Foi lançado no dia 12 de janeiro, começando bem musicalmente o ano. A capa trazia a imagem de um dirigível em chamas - o Hindenburg, 30 anos antes, com uma adaptação gráfica feita por George Hardie, como se falasse sobre a origem do nome da banda por uma simples imagem. E o nome da banda veio com cores diferentes para países, originalmente havia um azul-turquesa no nome da banda e no logo da Atlantic nas edições inglesas, e o laranja aparecia só nas edições americanas, e um tempo depois consideraram o laranja como oficial. Na contracapa, um clique da banda feito por Dreja. O álbum já começa bem, com uma pedrada de pura potência, a blueseira Good Times Bad Times mostra o resultado que podia dar o misticismo sonoro de Page, o talento de Jones, as batidas de Bonham e a voz de Plant se uniram e deram a esta música um toque de Midas transformando-se no pontapé inicial a uma epopeia sonora que duraria anos fazendo um som de puro peso; já na faixa seguinte, o grupo segue a desfilar canções brilhantes, como esta - Babe I'm Gonna Leave You nos colocam a um ambiente diferente e que nos fazia se encantar; e o disco ainda nos traz algumas pérolas recicladas musicalmente, uma delas é You Shook Me, de Willie Dixon transpõe essa agressividade e a voz de Robert traz provas de que ele canta com a alma e o coração mesmo; e se você ainda esperava coisa ficar maior, você vai sentir os primeiros segundos de Dazed and Confused, o baixo de Jones marca de cara e ainda temos Jimmy Page misturando a guitarra com arco de violino, transformando esta na maior viagem sonora que este disco nos oferece e com um instrumental que impressiona de cara a gente; e a sonzeira segue a rolar solta com uma das canções mais pop, como por exemplo Your Time is Gonna Come, uma música bem mais solta e também enérgica pela levada, tendo vocais no estilo gospel que se destaca na canção; em seguida, nós temos um momento vangloriante, uma canção acústica bem suave, intitulada Black Mountain Side, com uma pegadinha de música oriental e solos de violão que lembram um pouco a Índia até, como se fosse um passeio sonoro por estas terras; e para provarmos que nada é impossível para os sons ultrapassarem barreiras, se prepare para ouvir no volume máximo uma das melhores faixas do disco, esta é Communication Breakdown e sentirá o poder que a música deles tem que nos contagia rapidamente; e mais uma música do grande Dixon é relembrada pelos quatro, e desta vez é I Can't Quit You Baby, que começa com gritos de Plant e vai indo a uma atmosfera totalmente de blues puro, com um solo arrepiante de Page fazendo bonito como sempre; e para encerrar, temos uma das mais longuíssimas deste disco, How Many More Times, que traz uma breve citação sonora (sem créditos) de The Hunter, de Booker T. & the MG's e carregado de peso, mostrando que as portas do heavy metal estavam se abrindo completamente através deste disco.
Não demorou muito e o disco se tornou sucesso mundial, inclusive nos Estados Unidos, onde lotavam casas e se transformavam rapidamente gigantes da música, e aos poucos iam desbancando os Beatles dois discos depois. No início, ele não foi bem visto pela crítica, e demorou um pouco para entenderem o valor deste disco, mas acabou influenciando gente como a banda Aerosmith, que teve o disco como pontapé inicial para que fizessem a música deles anos depois. Existem muitas listas que foram feitas em sites e revistas colocando este trabalho entre os mais importantes: o tabloide britânico The Times em 1993 colocou como o 41º numa lista dos 100 maiores discos de todos os tempos, enquanto a emissora televisiva VH1 colocou na posição de número 43 numa lista com cem discos, em 2007 entrava na lista definitiva dos álbuns do Rock and Roll Hall of Fame, além de estar naquela famosa lista dos 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, organizado pelo jornalista Robert Dimery e não esquecemos dela (ACHOU QUE EU ESTAVA BRINCANDO????), a famosa lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, organizado pela Rolling Stone, na bendita 29ª posição. O disco teve uma extrema importância para o rock and roll e para o heavy metal, transformando esse som deles, pesado como um zepelim de chumbo, em algo mágico e eterno para as gerações.
Set do disco:
1 - Good Times Bad Times (Jimmy Page/John Bonham/John Paul Jones)
2 - Babe I'm Gonna Leave You (Anne Bredon/Robert Plant)
3 - You Shook Me (J.B. Lenoir/Willie Dixon)
4 - Dazed and Confused (Jimmy Page, inspirado em Jake Holmes)
5 - Your Time is Gonna Come (Jimmy Page/John Paul Jones/Robert Plant)
6 -  Black Mountain Side (Jimmy Page)
7 -  Communication Breakdown (Jimmy Page/John Bonham/John Paul Jones/Robert Plant)
8 - I Can't Quit You Baby (Willie Dixon)
9 - How Many More Times (Jimmy Page/John Bonham/John Paul Jones/Robert Plant)

sábado, 15 de abril de 2017

Um disco indispensável: Are You Experienced - The Jimi Hendrix Experience (Track Records/Polydor Records/Reprise Records, 1967)

Esta é a capa da edição inglesa, lançada pela Track/Polydor
Na cena roqueira de 1966, conjuntos musicais fugiam das mesmices e buscavam irem mais fundo nas sonoridades, e acabavam deixando o clima monótono para caírem de vez no conceito que ia ganhando mais potência: sexo, drogas e rock 'n' roll - o novo barato da juventude. E não era só a onipresente maconha, mas os ácidos como o lisérgico dietilamida, o famoso LSD - inventado pelo suíço Albert Hoffmann e experimentado pelo próprio descobrindo os efeitos após um passeio de bicicleta em 1943, tornou-se mania apenas mais de 20 anos após a descoberta e se tornou o queridinho dos músicos, e com o LSD, novas experiências sonoras aconteceriam e nascia uma nova fase do rock: guitarras distorcidas, influências das músicas feitas no Oriente e da dodecafonia, inclusive da vanguarda - o que tornou possível uma série de mudanças no ambiente cultural, e inclusive as artes ganhariam tons e um estilo mais aberto e solto: assim surgia a onda psicodélica, baseada nos movimentos de contracultura, e vários expoentes do movimento conquistariam o mundo com suas alquimias sonoras viajantes e que seguem a atravessar gerações e influenciar uma galera atual. De vários personagens desta cena que revolucionaram na música, um destes é James Marshall Hendrix, ou simplesmente Jimi Hendrix, nascido na cidade de Seattle no estado norte-americano do Washington em 27 de novembro de 1942, era mais que um mero músico - era uma lenda da guitarra, um mestre soberano em quebrar barreiras e ir além dos extremos, colocou sua magia nas cordas da guitarra e entrou para história rapidamente transbordando harmonias. Canhoto talentoso, o jovem James aprendeu a tocar sozinho depois que ganhou um ukulele de seu pai, quando trabalhavam juntos na sucata e que só tinha uma corda, mas se encantara mesmo assim e depois juntara dinheiro para comprar uma guitarra acústica, aperfeiçoando-se mais ainda. Partira para o Exército - servira como paraquedista em Nashville, capital da música e do country no Tennessee, e embora tenha se alistado como voluntário, nunca combateu na Guerra do Vietnã, mas permaneceu nos EUA e foi dispensado depois de fraturar o tornozelo em um salto. Após a fase de militar, ele acompanhou o pianista Little Richard - que tinha se convertido cristão na época, e fez parte da banda de Curtis Kinght & The Squires e logo depois formara uma banda em 1965 chamada Jimmy James & The Blue Flames, com uma breve temporada no Cafe Wha? em New York, onde ele tocava e fazia de lar, conheceu por lá um sujeito cabeludo, com bigode e cavanhaque quadradão: esse era Frank Zappa, que apresentara a mais nova tecnologia das guitarras, o inovador pedal wahwah - peça que tornaria seus números musicais verdadeiras obras-primas executadas em estúdio e ao vivo. Em 1966, enquanto fazia uma apresentação nesse mesmo Cafe Wha?, eis que alguém interessado no som decidira mudar o rumo da história de Jimi, e este alguém era Chas Chandler (1938-1996), produtor e baixista da banda The Animals, que o convidara para ir à Inglaterra e lá, seu nome seria maior mundialmente.
Para que tivesse seu lugar ao sol definitivamente, o canhoto de Seattle precisou se mandar para as terras do Velho Continente, onde lá ele formaria sua banda e impressionaria o público britânico. Mas antes, precisamos dizer que o Blue Flames deixara de existir para dar espaço ao The Jimi Hendrix Experience, e na nova banda haviam o jovem baixista Noel Redding (1945-2003) e o baterista John "Mitch" Mitchell (1946-2008) transformariam o trio em um dos mais emblemáticos dos anos 60, e atraindo fãs famosos, como Keith Richards, Brian Jones e Mick Jagger (Rolling Stones), John Lennon, Paul McCartney, integrantes do The Who, Ray Davies (The Kinks) e um jovem chamado Farrokh Bulsara, que se tornaria o líder de uma rainha dos palcos e do rock and roll. Logo de cara, grava compactos com as faixas 51st Anniversary, Stone Free e uma cover de uma música de 1962 intitulada Hey Joe de um compositor norte-americano chamado Billy Roberts. Foi atrás de vários selos em busca de conseguir um ótimo contrato com gravadora, inclusive pela mesma Decca que recusara os Beatles, quatro anos atrás, recusou ele. E como estava sendo empresariado pelos mesmos managers do The Who, acabou indo para a Track Records, gravadora de Kit Lambert e Chris Stamp, mas nos EUA quem distribuía era o selo Reprise, aquele que o Frank Sinatra fundou no comecinho dos anos 1960 e lançou muita gente boa adiante, mas com uma capa bem diferente - mais coloridona e mais psicodélica. Embora em alguns lugares do resto do mundo, foi distribuído pela Polydor, gravadora que, por muitos anos, fez distribuição internacional dos discos dele com o passar dos anos nos formatos vinil, cassete e CD anos depois até 2010 quando parte de seu catálogo foi levado para o selo Legacy, da Sony e onde permanece até hoje. E a sua popularidade só crescia, e de cara, o compacto com Hey Joe se tornara sucesso absoluto, e de outubro de 1966 a abril de 67, compusera e criara uma série de músicas  com Chas Chandler pilotando a mesa de som ao lado de engenheiros como David Siddle, Mike Ross e Eddie Kramer (com quem Hendrix fundaria em New York dois anos depois o estúdio Electric Lady e trabalhando com vários nomes da música, inclusive um tal de Led Zeppelin aí), cada um cuidando de determinadas músicas em sessões no De Lane Lea Studios, CBS Recording Studios e no lendário Olympic na capital inglesa. Assim nascia o álbum de estreia e o clássico de uma das maiores lendas do rock, do blues elétrico, da guitarra e por que não da música? Com o lançamento em 12 maio, o álbum Are You Experienced se tornou um grande workshop de guitarras, e assim ampliando seu legado para além dos barulhos, distorções e efeitos que influenciaram um sem-número de músicos. É aclamado como um dos melhores discos de estreia da história da música, e também um papel importante para a cultura psicodélica que hoje é reverenciada ao redor do mundo. É claro que, nos EUA, a ordem de faixas é diferente e muitos fãs assumem gostar da edição britânica, mas quem somos nós para dizer qual é a melhor versão, portanto, como foi lançado primeiro na terra do chá e das raízes do futebol, ficamos com o original mesmo.
Capa da edição americana, lançada em agosto de 1967 pela gravadora
Reprise Records, nesta continha as inéditas "Purple Haze" e "Hey Joe".
E como se trata de uma experiência, vamos indo experimentar essa lisergia sonora com a faixa que nos apresenta um pouco essa jornada doida, e estamos falando de Foxy Lady, que nos traz um fuzz delirante e que acaba jogando a gente para outras galáxias, e não tem como se perder nesse caminho, só sentir a vibe e acompanhar o mestre com seu som, apenas; em seguida, nós contamos com Manic Depression, e sua levada jazzística bem eletrificada, barulhenta que trata sobre estar tedioso e deprimido, na qual ele pretende em desligar-se e afundar profundamente, e bota bem profundo nisso; e logo na sequência, Red House acaba mantendo essa essência, esse gosto ácido do som pode nos encantar e seguir por milênios em nossos ouvidos cuja letra se trata de uma mulher que não ama mais o eu-lírico e vai embora - segundo Redding, essa seria uma ex-namorada do músico na época da escola, pra quem estiver interessado na história por trás dessa canção está aí uma curiosidade importante; a próxima canção é um blues-rock funkeado total, de atmosfera chapante e dando um astral mais vivo para a base, Can You See Me? é uma excelente peça sonora do álbum que não decepciona a gente e que traz um toque de Midas nas cordas da guitarra, e vale destacar as batidas de Mitchell aqui neste tema que os ares são mais rockers do que nunca pelo que se nota na audição do disco; e, continuando o bailado, temos Love Or Confusion, que tem um riff bem pegajoso, cheio de feeling e que carrega uma energia forte nos riffs sendo também um grande ponto do disco que merece ser relembrado; não deixando de falar também de outra pérola deste disco que fecha o lado A, intitulada I Don't Live Today, um excelente momento viajante do disco que não deixa a farra terminar e mostra uma boa concepção de base da parte de Noel e Mitch no improviso; e o disco continua a trazer outras delícias musicais, como a equilibrante May This Be Love, sem um riff como ênfase sonora, com percussão e melodias experimentais que lembram um pouco a música indiana (George Harrison entre outros já faziam isso) pela leveza nos acordes; a seguir, temos uma música que já é de erguer labaredas: e esta se chama Fire, com uma pegada totalmente fusion que une o jazz e o rock, e trazendo uma boa sequência instrumental se destacando muito na canção; mais em diante, nós temos uma das canções mais longas deste disco e também uma das mais viajandonas do disco, chamada 3rd Stone from the Sun, aonde há um diálogo de conversa entre Hendrix e Chandler e é quase toda instrumental, e temos também o baixo de Noel Redding ganhando um forte destaque pela sua levada bem grooveante, e ela simula sons espaciais: um space-rock hendrixiano de primeira, meus amigos; na sequência, contamos com a faixa Remember, um blues bem mais cadenciado e suave, dá pro gasto, não nos decepciona como o restante do disco (imagina se nos decepcionasse) e mostra um forte equilíbrio entre o trio no que diz respeito a alquimia musical feita de forma experimental, para ser mais preciso; e para terminar, temos aqui a faixa que começa com um efeito bem inovador na época com as fitas, e soa como o final da jornada maluca, intitulada Are You Experienced?, que se torna um exemplo à parte de como fazer grandes maravilhas na guitarra mesmo sendo canhoto, e provando que a viagem sonora valeu a pena e muito. Engano seu que falamos só das faixas conforme a ordem da edição inglesa, para não decepcionar os milhões de fãs do Hendrix, colocaremos aqui as faixas bônus que vocês encontram na edição dos Estados Unidos e em CD, a começar por Hey Joe: tema composto em 1962 que se imortalizou na voz e nas cordas da guitarra de Hendrix, o primeiro tema gravado em Londres e o primeiro sucesso dele mostram para o que ele veio mesmo; e temos também Stone Free, que fora lançado apenas como single e reaparecera nas edições posteriores em CD mundialmente, traz um baixo pulsante e um forte cowbell que mostram a verdadeira potência dos Experience, com ares latinos até que se tornariam presentes na sonoridade de um certo Carlos Santana (o guitarrista de chapéu e bigode, não o youtuber) mas também um pouco a levada afro, e o jazz em especial; mais em diante, teremos a mãe dos solos de guitarra: estamos falando de Purple Haze, que soa como uma narrativa de viagem de ácido feita pelo próprio guitarrista, nada mais a falar - somente apreciar e curtir de boas esse clássico; enquanto isso, outra que só aparecera nos bônus e em algumas coletâneas ganha destaque também: 51st Anniversary, influenciado um tanto pelo jazz primoroso na introdução, é bem tranquilo o som, mas não chega a decepcionar de jeito nenhum; e se acha pouco, então aprecie um pouco de um clássico que carrega um puro ar blueseiro, estamos falando de The Wind Cries Mary, os três fazem uma baladinha perfeita que é bem animada por um lado, com um momento instrumental de arrepiar total; e para fechar essa série de bônus, outra inédita que só apareceu em coletâneas e só 30 anos depois ganhara espaço na edição, essa é Highway Chile, um blues que lembra Muddy Waters e Chuck Berry ao mesmo tempo, só que mais eletrificado e mais lisérgico do que nunca, provando que Jimi fez muito enquanto esteve presente nesse universo.
O disco conseguiu se tornar uma peça-chave para a nova fase do blues, que havia surgido no comecinho dos 1960 com bandas britânicas redescobrindo as raízes do rock e a música norte-americana que se era feita lá nos primórdios do século XX, até que um breve tempo depois, estas bandas acabaram incluindo elementos diferentes, e Hendrix acabou sendo um dos mais reverenciados nomes do blues. Após sua morte prematura aos 27 anos, em 18 de setembro de 1970, o seu legado permaneceu mais vivo do que nunca, sua discografia acabou meio que fundando uma espécie de escola no mundo das guitarras, na qual haviam discípulos fieis, desde os já mais aclamados passando pelos futuros figurões do instrumento, e rompendo padrões na técnica, como por exemplo, ruídos de microfonia e do amplificador que podiam soar torturosos para a galera purista da época, o que se tornou algo muito inovante no universo da música a partir de então. E sabemos o quanto de listas feitas em sites, revistas especializadas, portais de música todas estas relacionadas aos anos 60 e sempre está destacada ou entre os 20 mais ou em 1º em algumas destas. A lista que destacou de forma grandiosa este disco foi a da revista norte-americana Rolling Stone, nos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos com a 15ª posição e figurando também em outra lista importante, aquela do 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, organizado pelo crítico Robert Dimery e mantendo-se onipresente no universo das guitarras como uma espécie de Bíblia, que merece ser respeitada, cultuada, divulgada e enaltecida depois de 50 anos do lançamento, é um testemunho de uma geração e também mais um registro importante da história no século XX com suas revoluções - sonora, política e social, que impactaram na forma de impressionar o mundo através da música.
Set do disco (11 FAIXAS ORIGINAIS DA EDIÇÃO BRITÂNICA + BÔNUS DA REEDIÇÃO EM CD A PARTIR DE 1997): 
1 - Foxy Lady (Jimi Hendrix)
2 - Manic Depression (Jimi Hendrix)
3 - Red House (Jimi Hendrix)
4 - Can You See Me? (Jimi Hendrix)
5 - Love Or Confusion (Jimi Hendrix)
6 - I Don't Live Today (Jimi Hendrix)
7 - May This Be Love (Jimi Hendrix)
8 - Fire (Jimi Hendrix)
9 - 3rd Stone from the Sun (Jimi Hendrix) 
10 - Remember (Jimi Hendrix)
11 - Are You Experienced? (Jimi Hendrix)
12 - Hey Joe (Billy Roberts)
13 - Stone Free (Jimi Hendrix)
14 - Purple Haze (Jimi Hendrix) 
15 - 51st Anniversary (Jimi Hendrix) 
16 - The Wind Cries Mary (Jimi Hendrix)
17 - Highway Chile (Jimi Hendrix)

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Um disco indispensável: The Freewheelin' Bob Dylan - Bob Dylan (Columbia Records, 1963)

Após a repercussão do seu primeiro disco, lançado em 1962, o jovem poeta de Duluth, cidadezinha do Minnesota, que chegara nas terras populosas de New York como um forasteiro numa cidade do Velho Oeste, andou por bares e festivais e conquistou rapidamente os norte-americanos com sua poesia, e tendo como suas maiores referências musicais o cantor Woody Guthrie - ídolo a quem a mídia o comparava nos primeiros anos de carreira e com quem teve contato, o cantor Hank Williams, Leadbelly, Blind Lemon Jefferson e escritores como Dylan Thomas (a quem o músico pegou o primeiro nome e colocou como sobrenome), Allen Ginsberg (maior dos seus ídolos literários e amigo), Jack Kerouac, Walt Whitman, Arthur Rimbaud entre outros, formavam os gurus e as mentes brilhantes por trás do gênio de Bob Dylan, que estava se tornando figurinha carimbada no festival de folk em Newport, sempre aberto a temas politizados e já fazia canções em cima das questões sobre a segregação que ainda existia nos EUA, a polêmica guerra do Vietnã e a convocação obrigatória dos jovens, além dos direitos eram o que mais se ouvia nas canções entoadas pelo músico. A Columbia Records não esperava que o jovem rapaz fosse se tornar um grande ícone da música e o mundo não imaginava que depois dos mais de 50 anos de história, ele seria laureado com um Nobel de Literatura, sendo assim um caso raro de um músico ser consagrado nessa categoria, e hoje ele segue a ser um exemplo de inspiração para os compositores e vários músicos na atualidade. Na época do seu primeiro disco, ele não havia chamado tanta atenção, e por pouco que desiste da música, porém tendo a força do Broadside, do empresário Albert Grossman, do pessoal do Greenwich Village e também do produtor John Hammond Jr., que levara o músico para o cast da gravadora Columbia, no qual permanece até hoje, ele seguiu firme. E logo adiante, o bardo judeu acabaria partindo para o estúdio novamente, cheio de letras novas, e vivendo momentos brilhantes, e um pouco tenso: na oportunidade de fazer um grande impulso nacional, acabaria tentando a grande sorte de levar seu trabalho para milhões de lares americanos através do programa de Ed Sullivan, mas devido a uma música que havia versos que haviam citações a um dos membros da John Birch Society, uma organização política de direita, sofreu o temido veto e assim não tivemos o grande Zimmermann com sua poesia para encantar a audiência. Mas, no meio do caminho, Grossman tentava convencer o músico de deixar a Columbia Records, e mesmo assim ele se sentia bem fazendo seus trabalhos lá. E mesmo com o resultado baixo das vendas do seu primeiro disco, e toda essa série de estranhamentos da fama que ele obtivera, seguiu em estúdio e com Hammond mais o produtor Tom Wilson, que trabalharia também ao lado de Velvet Underground, Sun Ra, The Mothers of Invention, Soft Machine, Simon & Garfunkel dentre outros. Mas, primeiro, Hammond teve de convencer os chefões do selo de que o próximo disco do "novo Woody Guthrie" seria um grande sucesso, e não estava errado: com The Freewheelin' Bob Dylan, mantendo sua linguagem poética e séria com vários temas a serem debatidos através de suas letras, ele iria além do que se imaginava.
"Meu primeiro álbum não foi tão bom? Então vamos
fundo pra fazer coisa melhor ainda"
Politizado e rebelde como sempre, o músico não perde a oportunidade de usar sua poesia, seu violão, sua harmônica para dar voz aos que mais precisavam, os que estavam contra os massacres promovidos na Guerra do Vietnã, os negros que combatiam a segregação racial estavam em busca de novos hinos do então jovem poeta. A capa do disco tem o clique de Dylan e sua então namorada Suze Rotolo feito pelo cara que já fotografou para Miles Davis, Thelonious Monk, Jaco Pastorious, entre várias outras capas, o lendário fotógrafo Don Hunstein - falecido em março recente -, colocou um momento bem à vontade de Dylan acompanhado de Suze caminhando pela região da 161th West Fourth Strit no frio neoiorquino em fevereiro daquele ano, e coincidência é que o estúdio fotográfico e o prédio da CBS ficavam bem pertos um do outro, e a imagem mostrava um Dylan muito diferente daquele que cantava sobre guerra, temor nuclear e racismo: a capa o trazia sereno, romântico e pleno ou seja: uma face mais doce do cantor. A imagem se tornou uma das mais inesquecíveis e foi revivida em uma das cenas do filme Vanilla Sky (2001) de Cameron Crowe com o mesmo cenário dos carros e prédios e Tom Cruise se sentindo Bob enquanto Penélope como Suze e qualquer comparação da foto da capa com a da cena é mera semelhança sim, e quem não entendeu a referência, põe o nome do disco com o do filme e veja como eles conseguiram ter audácia de fazerem isso. Bom, vamos em frente falando do álbum e direto na faixa que abre o disco e tornou-se seu hino maior da trajetória musical, estamos falando logo de Blowin' in the Wind, composta em 1962 sendo nada mais, nada menos que uma adaptação de um spiritual anti-escravatura chamada No More Auction Black, e que, além de ser descrita como uma canção de protesto, ela tratava questionamentos sobre paz, guerra e liberdade e que foi sucesso inicialmente com o trio Peter, Paul & Mary que ajudara a converter em um dos grandes clássicos da música no século XX, além de ser um dos cantos universais mais marcantes que ganharia versões como dos jovens e não tão conhecidos ainda Bee Gees, da parceira Joan Baez, Stevie Wonder e que ganhou adaptações para vários idiomas, inclusive o português - sim, a música ganhou duas versões em português, uma da baiana Diana Pequeno lançada no fim dos anos 1970, que mantêm o título em inglês, e outra do queridíssimo Zé Ramalho, lançada em 2008 num álbum onde interpretava canções do bardo intitulado Tá Tudo Mudando - Zé Ramalho Canta Bob Dylan com o nome de O Vento Vai Responder, mas aí já é outra história; em seguida temos aqui outro tema clássico que, segundo Keith Richards, carrega todos os elementos de uma bela composição folk sem ser preciosa - e nós estamos falando de Girl from the North Country, com uma narrativa sobre uma saudade ardente, e segundo o lendário guitarrista, o cara absorveu influências de canções folk anglo-celta e que teria supostas indiretas a Echo Helstrom, uma antiga namorada dos tempos de Hibbing, pois mal se trata da própria e possivelmente uma certa Bonnie Beecher, uma atriz que fez muita fama nos anos 60, essa canção seria reutilizada seis anos depois em um dueto com Johnny Cash em seu clássico Nashville Skyline, cuja resenha pode ser lida aqui neste link, enfim, muito se diz bem deste tema por sua originalidade poética de qualidade primorosa de sempre; em seguida, nós temos aqui um ataque à indústria bélica e que soa como o medo de um holocausto nuclear: esta, meus amigos, é Masters of War: um tema que clamava os horrores provocados pelas armas, e diferente das canções tradicionais que tratavam deste tema e atacavam mais os líderes políticos e generais, aqui são os fabricantes delas (as armas) e encerra dizendo que no final pretendia visitar os túmulos para ver se estavam mortos mesmo - o que soa tão macabro quanto as cenas mais tensas do filme Suspiria (1977) do italiano Dario Argento, sério mesmo; logo adiante, contamos com Down the Highway, um blues de 12 compassos pode soar como uma peça excelente, aonde o músico com sua gaita e seu violão além de sua voz anasalada narrando sobre a partida de seu amor (leia-se: Suze quando foi viajar para a Itália por um breve tempo) sem perder toda a sua essência e deixando rolar solta numa boa os versos; e se você acha que é pouco para os seus ouvidos, então você não ouviu ainda a narrativa cantada em Bob Dylan's Blues, onde ele cita o lendário Cavaleiro Solitário ou seja, Zorro e seu parceiro Tonto em uma breve narrativa sobre a história do folk em distintos tempos com uma veia satírica em um tom nonsense, soando como um cutuque à indústria fonográfica na introdução falada, mantendo o equilíbrio entre o vocal e a gaita sem deixar tropeços aqui; a seguir, contamos com um tema clássico do grande poeta de Duluth, eleita a 2ª maior canção dele, e que também marcou gerações com seus versos emblemáticos, é claro que nós estamos falando de A Hard Rain's a-Gonna Fall, e sua letra que inovaria o universo musical do folk, recheada de visões meio medonhas: crianças armadas, árvores lacrimejando sangue, dando um sinal de que tempos de guerra piores ainda estavam por vir, mas não se dizia quando .
Com Joan Baez em 1963, sua amiga e parceira de trajetória artística
em ação no festival de Newport em um de seus duetos.
E o lado B do disco já abre com outra música que traz como inspiração a ida de Suze para a Europa é Don't Think Twice, It's Alright - um tema que merece ser destacado pela sua melodia indescritível, apenas apreciamos as coisas cantadas por ele; as lembranças de quando ainda vivia no Minnesota e um breve retorno ao seu lar com uma visão diferente do passado, mas guardando coisas da infância, esta é Bob Dylan's Dream, que não chega a ser um grande tema segundo o biógrafo Robert Shelton, mas vale muito a pena dar uma ouvidinha neste tema; e como falamos anteriormente, o disco traz questões raciais, etc. e tal, e logo nós somos surpreendidos por Oxford Town têm como base a história de James Meredith, o primeiro negro a se inscrever na Universidade do Missisippi, em Oxford e que entrara lá com dois guardas o acompanhando, mesmo com uma letra politizada, carrega um tom mais alegre pela levada - meio estranho até; em diante, nós temos aqui Talkin' World War III Blues, que o título já entrega direto uma visão fantasiante do cantor sobre a 3ª Guerra Mundial, digna de deixar Guthrie orgulhoso por buscar as referências, pondera uma letra tão forte ter um quê de satírico sem perder o rumo das coisas e ganhando mais a atenção dos nossos ouvidos; e continuando aqui o bailado de canções, contamos com uma canção tradicional americana que ganhou uma bela versão, intitulada Corinna, Corinna, onde o músico está acompanhado de uma banda, que fora gravada anteriormente em um compacto e que diferente da versão apresentada, aqui ganha um corpo instrumental mais aberto que faz um bom trabalho acompanhando o cantor, apenas isso; na sequência contamos com outra música que não seja totalmente do próprio Bob Dylan, com base em uma música escrita pelo lendário bluesman Henry Thomas (1874-1930?), intitulada Honey, Just Allow Me One More Chance, que o músico aprendera - segundo o próprio - de uma gravação anônima de blues oriunda do Texas, mas sua versão deve-se a um certo Jesse Fuller, que cantava a tristeza de um jeito único, ou seja, há mais coisas de influentes no universo musical dylanesco que se possa imaginar; e o disco encerra com uma belíssima peça sonora dele, intitulada I Shall Be Free, onde o músico recria aqui uma canção de Leadbelly intitulada We Shall Be Free com toques de anticlímax, mediano, e que coloca um fim neste grande trabalho do mestre Dylan de vez. No mais, o disco é uma obra-prima por si, porém sofreu fortes alterações após quatro canções no começo por não terem sido compreendidas e que tinham sérias críticas, como Takin' John Birch Blues, Gambling Willie's Dead Man's Hand, mais Rocks and Gravel e também Let Me Die in My Footsteps aparecem em prensagens iniciais, sendo consideradas peças raras até hoje e por isso teve de ser gravada uma série de quatro faixas novas, como Girl from the North Country, Masters of War, Talkin' World War III Blues e Bob Dylan's Dream, sendo essas do repertório do disco até hoje. Enfim, o disco se tornaria um grande sucesso logo após o estouro da faixa inicial do disco e suas regravações e o mundo conheceria definitivamente o jovem poeta, o seu lugar na história da música foi inscrito através deste álbum, e o mais favorito de todos da fase acústica segundo especialistas em Dylan. Pondera o disco ter tido tanta relevância, ele foi o mais lembrado em listas sobre discos dos anos 60, estando entre até os 20 mais importantes álbuns da década, ele também foi lembrado numa lista de enorme relevância feita pelo jornalista Robert Dimery, o popular 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer (o qual eu sempre cito às vezes). E a revista Rolling Stone a aclamou na posição de número 97 da lista dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, mostrando o grande valor que esse disco segue tendo 54 anos depois de seu lançamento.
Set do disco:
1 - Blowin' in the Wind (Bob Dylan)
2 - Girl from the North Country (Bob Dylan)
3 - Masters of War (Bob Dylan)
4 - Down the Highway (Bob Dylan)
5 - Bob Dylan's Blues (Bob Dylan)
6 - A Hard Rain's a-Gonna Fall (Bob Dylan) 
7 - Don't Think Twice, It's Alright (Bob Dylan)
8 - Bob Dylan's Dream (Bob Dylan)
9 - Oxford Town (Bob Dylan)
10 - Talkin' World War III Blues (Bob Dylan)
11 - Corinna, Corinna (música tradicional, adaptada por Bob Dylan)
12 - Honey, Just Allow Me One More Chance (Bob Dylan/Henry Thomas)
13 -  I Shall Be Free (Bob Dylan)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Um disco indispensável: Hot Buttered Soul - Isaac Hayes (Stax Records/Enterprise Records, 1969)

No decorrer dos anos 1960, a gravadora Stax Records era uma grande fábrica de sucessos do R&B/Soul na época, era sediada em Memphis, no Tennessee e fundado pelo casal Jim Stewart e Estelle Axton, que se colocarmos as duas primeiras letras dos seus respectivos sobrenomes formavam o nome da gravadora, que, no seu surgimento em 1957 era chamado de Satellite Records. Assim como a Motown, sediada em Detroit no estado norte-americano Michigan, que tinha lá um elenco a peso e que valia ouro - Diana Ross & The Supremes, Stevie Wonder, Marvin Gaye, The Marvelettes, Smokey Robinson & The Miracles dentre outros, a Stax tinha também um cast que se podia considerar milionário depois que se agrandou em 1961, como Rufus Thomas, Booker T & The MG's, The Bar-Kays, o lendário Otis Redding, Wilson Pickett, o bluesman Albert King, a dupla Sam & Dave e também um compositor brilhante, careca, barbudo e quase sempre com óculos escuro: este era Isaac Hayes, dono de uma brilhante trajetória musical e que colocou sua voz não somente a serviço da música negra, mas também se tornaria a voz de um personagem da série animada South Park (sim, o cara já dublou e se você não notou nos créditos, procure ler com mais atenção ou jogue no Google meu amigo) sendo o responsável por dar a voz ao Chef, amigo das crianças desbocadas e que saíra em 2007 após fazerem um episódio zombando da religião do cantor, a cientologia. No ano seguinte, veio a nos deixar em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC) após ter sido encontrado em casa dez dias após o seu aniversário de 66 anos, em 10 de agosto de 2008. Deixou 12 filhos, 14 netos e três bisnetos (ô louco meu! é o Mr. Catra do soul pelo jeito!), além de mais de 20 álbuns de estúdio, somando os três ao vivo e as trilhas sonoras que ele compusera ao longo de sua trajetória musical. Sua estreia foi com o álbum Presenting Isaac Hayes, por um dos selos da Stax - a Enterprise Records, em fevereiro de 1968, e acabou sendo um dos discos com baixa de vendagens, ou seja: não foram muitos que compraram aquele álbum, e ele se viu obrigado a voltar para os bastidores como músico, compositor, arranjador e produtor para decepção do próprio. Aí que o rumo da história mudaria totalmente e conspiraria a favor do músico: com questões envolvendo o acervo e a parceria da Stax com a Atlantic Records, dos irmãos Ertegun, e todo seu catálogo a partir de 1961 teria que perder boa parte e convencer o guitarrista Steve Cropper e o próprio Hayes a lançarem discos solo após um pedido do executivo Al Bell, que como um gênio, teve a brilhante ideia de lançar um catálogo instantâneo de 27 discos e 30 singles (ô louco, bicho!) sendo assim um trabalho de formiguinhas incansavelmente difícil - não para Hayes, que em 1969 se recriara e expandira suas ideias para fazer um disco que se tornaria a trilha sonora do final dos anos 60 regada a muito soul, e se tornaria a ponte para uma nova linguagem do soul/R&B, e peça-chave para trabalhos de Stevie Wonder, Marvin Gaye, George Clinton & The Parliament Funkadelic, Prince entre outros: o original e clássico Hot Buttered Soul, lançado em 23 de setembro 1969, um disco que ninguém esperava nada, mas se tornaria peça-chave para a música que se faria mais adiante.
Isaac Hayes, o homem que inovou o soul no final da década de 1960.
Mas, para que este disco acontecesse, Hayes disse a Bell que só faria um disco se garantisse a ele todo o completo controle criativo, o que o novo chefão acabou atendendo o pedido e assim feito o álbum, que, reza a lenda de que foi produzido em época de estúdios mortos. Assim que, os trabalhos da parceria Bell/Hayes também trouxeram inovações com as técnicas do engenheiro de gravação Terry Maning e enquanto as bases principais eram gravadas em Memphis, vocais e mixagens e o restante ficaram com o técnico Russ Terana nos estúdios Terra-Shirma juntando os sopros e cordas gravadas mais a mixagem final no United Sound, ambos estúdios em Detroit com Don Davis pilotando a mesa de som e o engenheiro Ed Wolfrum gravando tudo. E tem mais: Manning usou as técnicas de reverberação, que havia sido usada nas produções da Artie Fields nos anos 50 seriam utilizadas nos outros discos do músico. Um som totalmente funk que soava como rock progressivo, músicas longas e arranjos que tinham ares bem inspirativos para um disco como este. As gravações foram durante a primavera e o começo do verão de 1969, tendo Al Bell e o tecladista Marvell Thomas mais Allen Jones envolvidos na produção e sua base musical foram três integrantes dos Bar-Kays que por sorte não pegaram o avião com Otis e recriaram a banda: o baterista Willie Hall, o baixista James Alexander e o guitarrista Michael Toles complementaram o time grandioso que contava com orquestra e coros mais Isaac na voz e nos teclados fazendo uma música de extrema grandeza. Mas, algo é notado em Hot Buttered Soul, a obra-prima do nosso saudoso Black Moses (apelido que se tornaria nome de um disco dois anos depois), o disco contêm 4 músicas, e todas longuíssimas, o que para alguns era coisa estranha pois sendo um disco de soul/R&B, tinha uma atmosfera jazzística que acabou tornando-se presente na sonoridade. Para começarmos a falar deste disco, vamos direto para Walk On By, com seus 12 minutos e 4 segundos, uma releitura do tema de Burt Bacharach e Hal David, recheada de efeitos e de metais bem sofisticados que nos fazem deliciar-se com tanta sensualidade nos arranjos, e se torna um grande destaque do disco, não deixando a gente perder-se no rumo: só ouça e sinta a energia que essa música traz, a faixa seria sampleada anos depois por 2pac Shakur, Notorious B.I.G. e também por Hooverphonic e pelo Wu Tang Clan anos depois, se tornando a queridinha dos samples de hip-hop e dos DJs em especial; a faixa seguinte, tem um nome meio complicado de falar, e que lembra até o Eminem (tentem entender o porquê),os nove minutos de Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic nos apresenta um som cheio de grooves e a guitarra de Toles com muitos wah-wahs não decepciona aqui ao longo do disco e soa como um funk potente para as massas que acabam caindo na onda do groove sem tanta enrolação, o bom é curtir essa viagem sonora do disco, que tornaria-se também reutilizável como sampler para músicas do Public Enemy, The Game e também do N.W.A. entre outros figurões de hoje; o lado B do disco começa com a única música de duração "normal", One Woman é a mais bela canção deste disco e a mais bela narrativa sobre infidelidade que se divide em um conflito: entre a mulher que constroi o seu lar ou a que o leva a errar? E aí fica essa dúvida no ar dos ouvintes do disco; para terminar o disco, mais outra recriação que se tornaria um clássico em sua voz: By the Time I Get to Phoenix, que nos primeiros 9 (!!!!) minutos só temos um Isaac narrando a história da música começando com um verso bem empolgante e suave "I'm talking about the power of love now/I'm gonna tell you what love can do/You know, when they say love makes the world go round/That's the truth..." (Eu vou falar agora sobre o poder do amor/Vou falar sobre o que o amor pode fazer/Você sabe, quando a gente diz que o amor faz o mundo girar/E essa é a verdade...) e essa entrada seria inspiração para Teddy Pendergrass, Barry White (esse era especialista), Marvin Gaye entre outros, e que numa explosão de sons, acaba não decepcionando a gente no final, e seus 18 minutos e 43 segundos de canção, se tornaram úteis aos nossos ouvidos.
O resultado acaba sendo agradável, não deixando a gente se perder no caminho com tanto som puro e original, é um excelente trabalho e que consagraria o Black Moses ao redor do mundo com seu estilo de fazer soul e que acabaria criando uma escola para quem estava afim de transformar o soul em uma delirante viagem sonora que acaba dando pro gasto. De acordo com Pedro Só, na revista BIZZ edição 133 (agosto de 1996) na seção Discoteca Básica a respeito do disco, que a partir que tocavam Walk On By nas rádios, a música negra e os padrões do pop começavam a mudar de vez após este. O disco, para quem acha que não é lá grande coisa (porque mal ouviu direito e nem conhece direito o trabalho dos caras), está em listas de álbuns importantes do soul feitas por revistas e sites especialistas no assunto, além de figurar no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, prova de que o disco teve seus méritos importantes para contribuir com a evolução da música nos anos 70.
Set do disco:
1 - Walk On By (Hal David/Burt Bacharach)
2 - Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic (Isaac Hayes/Alvertis Isbell)
3 - One Woman (Charles Chambers/Sandra Rhodes)
4 - By the Time I Get to Phoenix (Jimmy Webb)

domingo, 2 de abril de 2017

Um disco indispensável: We're Only in It For the Money - Frank Zappa & The Mothers of Invention (Verve Records, 1968)

Com a cena musical toda vivendo do conceito de muito sexo, drogas e rock and roll, o final dos anos 60 foi marcado pela euforia artística e política que circundava nos movimentos, e nada podia parar aquela juventude, nem mesmo grandes autoridades e tropas militares. Mas também era motivo de deboche para a galera mais conservadora e refinada, vendo que aquele pessoal que bradava os ideais hippies e desfrutavam da boa hora para fazerem críticas em matérias, num tom cômico, e o humor trazia um pouco essa coisa do alto teor de deboche com os hippies. E se houve um especialista nessa coisa de satirizar com muito humor o movimento de contracultura, esse alguém foi o músico, produtor e também gênio à frente de nosso tempo Frank Zappa, pioneiro em fazer jazz e rock ao mesmo tempo com uma dose de vanguarda, acompanhado de seu grupo de apoio, o The Mothers of Invention que contavam com Billy Mundi (bateria), Bunk Gardner (sopros), Roy Estrada (baixo), Don Preston (teclados), Jimmy Carl Black (trompetes e bateria), Ian Underwood (pianos e sopros) e Euclides James "Motorhead" Sherwood (saxofones barítono e soprano, percussão) faziam excelentes alquimias sonoras que resultavam-se em canções de fácil assimilação popular, e que influenciariam muito no circuito de vanguarda musical. Em 1966 ele lançara um dos primeiros álbuns duplos da história, o Freak Out! pela cultuada gravadora de jazz Verve Records (especialista em lançar alguns artistas de variadas vertentes musicais) e acabou causando um grande impacto na cena, e no ano seguinte, com Absolutely Free, repetiriam a dose do álbum anterior, tendo repercussão com Kill Ugly Radio, um dos temas de grande destaque do álbum, e nesse mesmo período ele trabalhava em dois materiais para serem lançados em 1968: um com os Mothers e o outro solo. Esse último material seria uma espécie de baguncinha sonora, com os Abnuceals Emmuhka Electric Symphony Orchestra, uma orquestra criada para esse álbum mais orquestral, intitulado Lumpy Gravy, um conjunto de melodias e sons dividido em duas partes, que viria a ser um pioneiro da música eletrônica possivelmente. Já o próximo material com os Mothers seria um álbum mantendo a linha do escracho, e desta vez os alvos seriam os hippies, em um disco inteiro, eles usariam suas experimentações para colocarem essa geração como alvo, e acertando os dardos direto eles fariam deste o maior legado do músico e do grupo, e que legado esse disco deixou hein?! Lançado em 4 de março de 1968, o álbum We're Only in It for the Money trouxe um exemplo de como sacanear aquela geração que bradava por liberdade, paz e amor e lutar contra o sistema capitalista, e de que toda aquela história de bradar por revolução, mudar o mundo era nada mais que uma simples desculpa da juventude de desfrutar a vida nos extremos entre muito consumo de drogas, e sexo em geral.
Frank Zappa, Billy Mundi, Bunk Gardner, Roy Estrada (de meia-calça rosada), Don Preston,
Jimmy Carl Black e Ian Underwood: os The Mothers of Invention rompendo paradigmas e cheios
de graça para debochar
Com as gravações ocorrendo no período de março de 1967, logo após o músico ter concebido o projeto Lumpy Gravy, que só lançado em setembro daquele ano, e reeditado no ano seguinte pela Verve com duração maior do que a edição da Capitol e com vários meses de diferença, ou seja, um período diferenciado entre cada gravação, até aqui tudo belezinha. Mas o importante é destacarmos também a parte de que fora gravado simultaneamente com o disco de Zappa, e o músico ousara fazer experimentos com diálogos que cruzavam entre uma música e outra, além de fazer uma descoberta genial, de que as cordas do piano de cauda do Apostolic Studios ressoaria toda vez que alguém falasse perto das cordas, e a experiência acabou envolvendo não só o próprio mas também convidados como Eric Clapton, que na época estava com a banda Cream em seu auge, fez uma participação especial em duas faixas mais com diálogos do que com sua guitarra mágica. Outro grande fator responsável pela concepção do disco foi também a forma como acabou se transformando em uma delirante aventura com os experimentos sonoros. E de agosto a outubro de 1967, o trabalho seguia a retomada a pleno ritmo, com novos elementos incorporados e algumas coisas inspiradas em Absolutely Free e em Lumpy Gravy, que acabou sendo incorporado dentro dessa bagunça sonora e debochada que virou o disco We're Only in It For the Money, lançado em 4 de março de 1968, com a produção do frontman dos Mothers e um forte teor satírico a psicodelia, com um tom de música concreta e uma forte onda de experimentalismo e colocando em versos algumas coisas sobre o flower power, e como já sugere o título em portugês: Nós Estamos Nessa Somente pelo Dinheiro (sem Google Tradutor para ajudar). E também de que essa coisa de paz-e-amor toda, essa coisa de liberdade ia além do que se imagina, passando completamente pelos extremos do universo flower-power, os alvos das canções do disco são vários, desde os jovens iludidos até o paraíso de todos os hippies, San Francisco, a lendária cidade californiana que se tornou capital dessa coisa toda que é o hippismo. Outro motivo que nos leva a ouvir o disco é o fato de ser uma paródia de um disco que todo mundo conhece, ouve e exalta: sim, é o próprio Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, e o pior, tem tudo a ver o conceito do disco: além de parodiar o álbum de forma cômica e musical, até na arte conseguiram ir além, imitando a arte toda do álbum, desde a capa, que tem além dos Mothers, a própria esposa Gail Zappa grávida de Moon na época, além de Jimi Hendrix perto de uma árvore de Natal e um cara de cócoras segurando uma caixa de ovos que parece ser o autor da ideia da capa, Cal Schenkel, que aparece também no topo, irreconhecível, tocando acordeom. Além disto, quem também estampa a capa (alguns com tarja nos olhos) são Elvis Presley, David Crosby, Lloyd Price, Eric Burdon (vocalista do The Animals), Big Mama Thorton, Nancy Sinatra, o clássico personagem de cinema Nosferatu, além de Albert Einstein e, pasmem, o bandido Lee Oswald (que matara John Fitzgerald Kennedy em 1963) além do policial que estava junto dele numa foto, além dos pais de Zappa e de Gail. O restante das personalidades e anônimos vocês conferem nesse link aqui para tirarem suas dúvidas. Para que a capa fosse lançada, Frank Zappa telefonou para (adivinhem?) Paul McCartney pedindo permissão para que a capa parodiada fosse lançada, porém o músico disse que isso era com os gerentes de negócio, e o mother disse que não era com eles que se devia resolver esse assunto. Após várias discussões com a Capitol, não deu outra e Zappa voltou para a gravadora Verve, na qual até aceitaria lançar o disco, mas o problema seria esse: com boatos de que Paul teria não entendido e não gostado da brincadeira com a capa, uma das opções seria esta - colocar a interna com uma foto da banda ocupando os dois lados num fundo amarelo como capa principal e o que seria a capa/contracapa apareceria como uma surpresinha para os fãs. Após várias reedições em LP e CD desse jeito, não faz muitos anos que a Zappa Records - selo especialista no catálogo do músico e responsável pela preservação de seu legado no mundo todo - colocou o formato da forma como era para sair.
Os Mothers em 1969: já sem Billy Mundi, mas com Art Tripp
(de camisa de bolinhas e casaco marrom) e também Euclid James
"Motorhead" Sherwood (de óculos escuros e gravador na mão), protagonistas
de um dos momentos mais divertidos da era psicodélica.
O disco abria com uma série de diálogos e sussurros que fazem parte de Are You Hung Up? a abertura que traz uma pontinha de ninguém mais, ninguém menos que Eric Clapton, que a convite de Zappa, dispensou as guitarras, e após um fuzz de guitarra surge um "hi boys and girls I'm Jimmy Carl Black and I'm the indian of the group" como cartão de visita de um dos Mothers para o público; em seguida surge o esculacho com a turminha good vibes, em Who Needs The Peace Corps?, onde o grupo mostra-se insuperável na arte do deboche e não perdoa os movimentos de contracultura que falavam sobre paz e liberdade, até mesmo mostram-se sagazes criticando os jovens e suas loucuras durante as procissões até chegarem no paraíso dos hippies, a lendária San Francisco, numa pegada bem R&B bem viajante e que dá para o gasto até - e não estou mentindo; mais adiante, temos outra pedrada cômica deste disco, logo Concentration Moon, com os Mothers inteiros debochando os padrões do tão falado American Way, que é muito modulado e cheia de questionamentos ao longo da canção, sendo uma bela prova de como fazer a América confundir e rir ao mesmo tempo; mais adiante, nós temos aqui Mom & Dad, uma baladinha meio sem sal, mas não decepcionando a gente com uma história de um jovem que, por meio de uma carta, diz que vai deixar a casa em um relato narrado de forma trágica, aquela coisa simples da alquimia poético-sonora tradicional dos Mothers que se nota ao longo do disco; existe um certo intervalo nessa primeira parte do disco feita por duas músicas: a primeira é Telephone Conversation, que é nada mais que uma simples discussão telefônica de 50 segundos com um Zappa a procura de um telefone 678 9866 e se depara com Suzy Creamcheese (pseudônimo de Pamela Zarubica, uma amiga dos integrantes que participava das loucuras deles) discutindo com uma certa Vickie do nada, e essa chamada que dá a deixa para Bow Tie Daddy e seus menos de 35 segundos com uma baladinha meio folky narrando a história de um pai de família inescrupuloso, o típico da família americana; a seguir, temos uma das mais perfeitas sacadas do disco - Harry, You're a Beast e a história de uma típica mulher norte-americana com todos os padrões, com um diálogo teatral aonde temos personagens chamados Madge e Harry em uma situação macabra que soa como se fosse uma ameaça, onde essa Madge parece dizer "don't come in me, in me" mas que se você for notar na contracapa do disco, o verso está como "censored censored censored" com medo de que fossem acusado por expor certos absurdos em uma música - uma das travessuras mais estranhas, porém brilhantes; seguindo o baile zueirão do Zappa, temos aqui What's the Ugliest Part of Your Body?, uma visão duramente crítica sobre as ideologias a respeito do modelo tradicional de beleza americana, precisamente, com uma vibe bem delirante que dá para o gasto definitivamente; na sequência, a próxima faixa nos mostra uma abertura sutil com um piano simulando doces melodias mas depois vai mudando as coisas e eis que temos Absolutely Free (que não tem nenhuma ligação com o álbum de 1967), uma breve sacanagem com os ideais fora do sentido do chamado acid rock, sem perder a pose total; mais adiante, a música que trazeria o termo que seria o som do final dos anos 70: Flower Punk era nada mais que uma molecagem em cima do hippismo tendo como o nome do personagem de Punk, olhem só! A viagem sonora do disco chega ao seu ponto alto através desta música, aonde usam como base sonora o clássico Hey Joe, de Jimi Hendrix (logo ele que aparece na capa do disco) e resumindo: um tema clássico e autêntico; a próxima música seria apenas um breve intervalinho com uma zueira experimental chamada Hot Poop, e seus 26 segundos bizarros e divertidos ao mesmo tempo, algo comum em um disco dos Mothers qualquer; complementando o álbum, temos aqui uma delirante e impressionante viagem sonora do disco chamada Nasal Retentive Calliope Music, que soa experimental do começo ao fim, apenas isso, e que já diz na contracapa ser uma série de fragmentos instrumentais sobre pessoas com estranhos hábitos pessoais e no final, simula uma sonzeira bem surf-rock, retomando ao começo da década mais inovadora do século XX; mas que esse surf-rock era apenas uma antecipada para Let's Make the Water Turn Black, um grande tema de destaque desse disco que segue a falar um pouco desse padrão de bom-mocismo das famílias norte-americanas da forma mais esculachada possível, ganhando os ouvidos de muitos fãs e inspirando letras de bandas do punk rock e de música alternativa anos adiante, pra serem mais precisos e encerrando com uma entrada de um programa de rádio e ruídos variados; e se você acha que não tem mais zoeira, isso é porque na próxima faixa, The Idiot Bastard Son - que mostra um declínio dos valores tradicionais e a idiotização da juventude hippie movida a drogas e a puro rock 'n' roll, com direito a Eric Clapton novamente participando em um diálogo no meio da música; mais adiante, outra letra que segue a questionar esses valores das famílias estadunidenses é Lonely Little Girl, que chega a ser uma continuação da faixa anterior praticamente; enquanto isso, a turma do sr. Francis Vincent Zappa segue a esculachar os ideais da juventude hippie em Take Your Clothes Off When You Dance, onde faziam piadas sobre o mundo ansiado pelos emblemas de paz e amor na época, com uma breve passagem pelo doowop, influência sonora dos Mothers  notavelmente; a faixa seguinte é nada mais que uma reprise de What's the Ugliest Part of Your Body? numa versão mais experimental com efeitos de gravação que nos divertem apenas; e mais uma vez, nós temos aqui outro grande destaque do disco, que é Mother People - peça mais que essencial com seus dois minutos simulando uma miniópera bem progressiva com suas passagens mais lentinhas e momentos rápidos, uma bela prova de que Zappa sabia conceber belas obras de arte da música, apenas isso - e com uma bela citação de um dos fragmentos sonoros de Lumpy Gravy no meio da música a complementar; e para fechar com tudo esse disco, uma grande viagem sonora - novamente instrumental - chamada The Crome Plated Megaphone of Destiny, outra piração musical que lembra até um pouco The Return of the Son of the Monster Magnet, do primeiro álbum da banda e aqui o conjunto de fragmentações sonoras nos dá uma sensação de que o disco era uma obra-prima à frente do nosso tempo, e não sou só eu que falo disto não.
Provando ser uma espécie de roleta-russa em cima do emblema hippie, do desbunde psicodélico e com a frase "Flower Power sucks!" (Flower power é uma porcaria - tradução) e também trazer algumas verdades sobre a decadência dos valores tradicionais do modo de vida das famílias americanas, com um pouco de baderna musical como pano de fundo principal e toda a irreverência que só Zappa tinha. Não bastava saírem ilesos dessa série de críticas aonde não perdoavam ninguém, acabaram se tornando uma forte presença na vanguarda e tornando-se referências importantes para a linguagem crítica do rock mais experimentalista. E após os episódios que mostravam o que era basicamente o Flower Power e seus emblemas de sexo livre, de música chapante, tudo isto teve seu preço: com a represália dos movimentos jovens e a euforia vivida, a violência reinou no festival de Altamont, organizado pelos Rolling Stones e com a presença dos Hell's Angels, que além de serem os seguranças, promoveram muita pancadaria e mortes como a de Meredith Hunter, um jovem negro de 18 anos que foi assassinado por, supostamente, portar uma arma naquele evento. E a morte repentina de ídolos como Jimi, Janis Joplin, Jim Morrison e outros causou o fim do sonho de uma juventude. E no meio disto, Zappa seguiu com sua brilhante discografia e trabalhos, promovendo clássicos atrás de clássicos, mas com outros temas para debater e toda a sua forma irreverente, embora tenha se mantido com os Mothers até o ano de 1975, quando eles lançam One Size Fits All, marcando o fim de um dos grandes grupos da geração 60/70 mas Zappa seguiria com sua carreira solo, desenvolvendo projetos brilhantes até sua morte em 4 de dezembro de 1993, em decorrência de um câncer na próstata, mas deixou uma boa quantidade de material inédito para seguir sendo apreciado até hoje, 23 anos depois. O disco ganhou destaque importante com sua linguagem extrovertida com o passar dos anos, e brevemente se tornaria um álbum notável em listas, como a dos 500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos, da revista norte-americana Rolling Stone, levando um 297º lugar, e sem deixar de se tornar uma peça-chave do deboche promovido na época, uma obra-prima intocável da carreira de Zappa, um cara que soube fazer música boa e de qualidade, apesar de enquanto vivo ser notado como um louco, mas tendo mais respeito e mais fãs nos dias de hoje.
Set do disco:
1 - Are You Hung Up? (Frank Zappa)
2 - Who Needs The Peace Corps? (Frank Zappa)
3 - Concentration Moon (Frank Zappa)
4 - Mom & Dad (Frank Zappa)
5 - Telephone Conversation (Frank Zappa)
6 - Bow Tie Daddy (Frank Zappa)
7 - Harry, You're a Beast (Frank Zappa)
8 - What's the Ugliest Part of Your Body? (Frank Zappa)
9 - Absolutely Free (Frank Zappa)
10 - Flower Punk (Frank Zappa)
11 - Hot Poop (Frank Zappa)
12 - Nasal Retentive Calliope Music (Frank Zappa)
13 - Let's Make the Water Turn Black (Frank Zappa)
14 - The Idiot Bastard Son (Frank Zappa)
15 - Lonely Little Girl (Frank Zappa)
16 - Take Your Clothes Off When You Dance (Frank Zappa)
17 - What's the Ugliest Part of Your Body? - Reprise (Frank Zappa)
18 - Mother People (Frank Zappa)
19 - The Crome Plated Megaphone of Destiny (Frank Zappa)